Copy
Recebeu de um amigo e quer assinar ou conhecer melhor? Inscreva-se aqui.
Se a news não abriu ou cortou, leia no seu navegador, basta clicar aqui.
Oi,você! Bem-vinda/e/o à newsletter, uma dose mensal de inspiração, livros e conteúdo criativo direto no seu e-mail. Por aqui, todas as artes se misturam, com uma puxada de sardinha para a literatura, é claro. Se você gosta da newsletter, considere apoiá-la com uma doação mensal no Catarse Assinaturas e compartilhando por aí. A você que já apoia de alguma forma, meu muito obrigado.
Um oceano de tempo e ideias
(nessa edição: as águas-vivas de Aline Valek encontram a baleia morta de Béla Tarr)
o homem e a baleia>>
O Tumblr e sua mistura de conteúdo característica (você sabe do que estou falando) às vezes nos surpreende. Estava por lá quando esbarrei na seguinte miniatura de um vídeo: um homem de chapéu e casaco, de costas para a tela, olhava para o que parecia ser o cadáver de uma baleia... na praça... no meio de uma cidade.

No mesmo instante, apertei play para saber do que se tratava. Sem nenhum contexto, me deparei com uma cena filmada com muita precisão e embalada por uma das músicas mais bonitas que já havia escutado. Um homem solitário, o cadáver de uma baleia, uma cidade vazia e só. Seu olhar triste diante da cena deixava claro que algo de muito errado havia acontecido e eu queria saber o quê.

Foi esse o meu primeiro contato com o diretor Béla Tarr e o filme "Werckmeister Harmonies", dirigido com sua esposa e colaboradora constante Árgnes Hranitzky. Aquela cena que me encheu de perguntas, veja só, não era o início de algo, mas o fim do filme.
 
>>
A história de "Werckmeister Harmonies" é bem simples: a chegada do frio e de um circo misterioso (que tem como atração principal o cadáver da baleia) muda a rotina de uma cidade a ponto de fazer sua população pacífica embarcar na histeria da barbárie, com direito a uma cena de invasão a um hospital que nos deixa perguntando que limite precisa ser cruzado para fazermos o caminho de volta à civilidade.

Na entrevista de divulgação do seu último filme "Cavalo de Turim", Béla Tarr comentou que para ele: "O filme não é a história. É principalmente imagem, som e um monte de emoções. As histórias só estão cobrindo algo".


Pode ser a fotografia deslumbrante em preto e branco, a música destruidora de Mihaly Vig (procure por aí, sério), ou seus planos longos de minutos (a cena que comentei tem quase 5 minutos de duração. Para comparação: um plano contemplativo na saga Star Wars dura em torno de 10 segundos), mas embarquei cem por cento na experiência de imersão do diretor e coloquei "Werckmeister Harmonies" na minha lista de filmes favoritos. E de fato, embora nada pareça remeter diretamente a uma trama, as peças se encaixam de alguma forma, permitindo o entendimento.
Béla Tarr"A maioria dos filmes funciona da seguinte maneira: informação e corte, informação e corte, informação e corte. Para eles, a informação é somente a história. Para mim, a informação também existe em outros aspectos da cena. Eu tento envolver o tempo, o espaço e várias outras coisas que são parte da nossa vida, mas não estão conectadas diretamente à narrativa. Pode ser algo que está acontecendo entre nós (aponta para o entrevistador), e eu movo a câmera e mostro outro elemento, mas que de alguma forma se conecta a você." - [Béla Tarr em entrevista para Gary Pollard. Imagem: Marton Perlaki, The Room Magazine.]
 
>>
 Nesse oceano de ideias que é a arte, encontrei outra experiência de imersão em terra brasileira, dessa vez na literatura. Foi graças ao Twitter que conheci a autora Aline Valek e seu livro "As Águas-Vivas Não Sabem de Si". Nele, em vez de uma cidadezinha húngara isolada pelo frio, temos uma estação de pesquisa submarina cercada pela escuridão. Sai de cena a baleia morta símbolo do caos, entra a baleia viva símbolo do conhecimento e seu chamado irresistível.

A história do romance de Aline Valek também é simples na superfície (ai ai, os trocadilhos): no ambiente de convivência coletiva inescapável de uma estação submarina, uma equipe tenta desvendar os mistérios do oceano. Mas jogar luz nessas zonas abissais a três mil metros de profundidade acaba revelando segredos de cada um deles que podem afetar o rumo de suas vidas.

Quem nos guia nesse passeio é a mergulhadora Corina. 
 
 
"Corina não teve certeza sobre o ouvir; não sabia se por ser muito alta ou muito baixa, mas sentiu a voz da baleia em seus ossos, vibrando em seu interior. Ela se lembrava da sensação, do corpo tomado por uma bolha retumbante, mas se lembrava sobretudo porque não se esqueceu do que aconteceu logo depois. E isso já fazia o quê? Dois, três anos?"

"O que recebeu foi um som primitivo que continha um chamado, uma conversa (...) Então desceu mais, prendeu a respiração por mais tempo e mergulhou."

 
>>
Embora tenha Corina como protagonista, Aline Valek escolheu um narrador onisciente que nos aproxima tanto dos personagens humanos quanto das criaturas marinhas. Os capítulos que acompanham essas criaturas funcionam de maneira parecida com a não-história de Béla Tarr. Ao olhar para lugares não convencionais, a autora reforça a imersão e nos dá peças indiretas para entender os dilemas dos personagens humanos: qual a nossa relação com a individualidade e o coletivo? Temos a necessidade de escolher um objetivo para nos mantermos sãos? Perder esse objetivo nos deixaria à deriva? Até que ponto somos afetados pelo isolamento?

Por breves capítulos, vemos a história do ponto de vista de um polvo, uma baleia, um ermitão e, lógico, das águas-vivas.
Aline Valek"As coisas fazem mais sentido quando você se encaixa dentro de um todo. Entender-se como um indivíduo significa liberdade? Talvez. Mas essa consciência tem um custo. A questão central no capítulo sobre as águas-vivas é essa dualidade entre o coletivo e o indivíduo. Tem essa água-viva que é afastada do grupo dela, despedaçada por um submarino que as atravessa. Ela adquire consciência nessa jornada que ela faz sozinha, começa a se entender como indivíduo, e, por isso, começa a se encher de um sofrimento que antes não existia nela. É uma jornada inversa à da Corina, que mergulhou tanto na solidão que deu a volta e se encontrou com algo maior" - Aline Valek.
>>
Um diretor húngaro contando uma metáfora sobre regimes totalitaristas. Uma autora brasileira propondo um mergulho para dentro de nós mesmos.
Duas obras pensadas fora da caixinha e que, mesmo separadas por léguas de distância, construíram um diálogo entre si.

Talvez o elo esteja na tríade comentada por Béla Tarr "Imagem, som e um monte de emoções", mesmo que na literatura elas sejam criadas diretamente na nossa cabeça.

Ou talvez na frase essencial para nossos tempos que Aline Valek falou no finalzinho da nossa conversa por e-mail: "Só a linguagem é estruturante de sentido. Acho que é dentro dela que toda busca, toda investigação acontece".

Durante 2019, a busca continua também por aqui, na nova fase da newsletter.
Eric Novello é autor de "Ninguém Nasce Herói" e "Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues", e tradutor de livros e quadrinhos.
Site
Twitter
Instagram
Antes de nos despedirmos, que tal apoiar a newsletter e meu trabalho como autor? Você pode fazer isso de várias formas: 1. com uma pequena contribuição mensal no Catarse Assinaturas, 2. comprando e divulgando meus livros e 3. ajudando a espalhar a newsletter por aí. Até a próxima edição!
Espalhe no Twitter
Envie para um amigo
Poste na outra rede
Esta newsletter está sendo enviada de:
Neon Azul
2º andar
Rio de Janeiro (RJ)

 
Quer mudar a maneira como você recebe esse e-mail?
Você pode atualizar suas preferências ou cancelar sua assinatura.
 
Email Marketing Powered by Mailchimp