Copy
Bom dia!
É preciso encontrar tempo para escrever. Digo isso porque no sábado acordei com ideia para mais uns três livros diferentes, um de ficção, dois de não ficção, e lá pelo meio dia percebi que eu não tenho estrutura hoje para escrever esses três livros.

Quando falo em estrutura, quero dizer rotina, hábito, organização do meu tempo. Tenho dedicado o meu tempo a outras atividades e por isso a escrita tem sido secundária para mim. Tomar consciência disso me parece importante para que eu tenha condições de escolher se quero fazer diferente.

Sem consciência não há poder de escolha.

Isso dito, vamos dar continuidade ao exercício que temos realizado nas últimas semanas. Fiz o seguinte convite aqui na newsletter, e desde então tenho respondido aos exercícios recebidos:
Reginaldo entrou na sala.

O exercício é reescrever essa frase, adicionando um detalhe original.
Você pode ler mais sobre a lente do detalhe original e também sobre a lente da curiosidade no arquivo das newsletters passadas.

Vamos agora às respostas!
Reginaldo entrou na sala. Ele era professor num curso de inglês há 4 anos e, ainda assim, ficava ansioso antes de começar com uma turma nova. Puxou a manga do casaco para ver a hora no relógio de pulso, faltavam cinco minutos para a aula começar. Questionou-se o porquê de ter inventado de ir ao barbeiro no horário de almoço. Respirou fundo, ajeitou os óculos e foi escrever no quadro branco um recado de boas vindas antes que os alunos chegassem. (Vivian Anjos)
O detalhe original é algo que acrescenta personalidade ao personagem, objeto ou ambiente sendo descrito. Nesse parágrafo, vejo algumas ações de Reginaldo e aprendo, pela voz da narradora, que ele ainda sente ansiedade. Pensando pela lente do detalhe original, eu gostaria de saber se essa ansiedade se manifesta de alguma forma específica.

Por exemplo, a informação do banheiro é bem interessante para mim. Certa vez tive um professor que interrompia as aulas para ir ao banheiro, afirmando que sua bexiga, aos sessenta anos, já não aguentava mais esperar. Essa pequena informação ficou comigo porque era bastante particular a esse professor. Todos nós sentimos vontade de ir ao banheiro, inclusive em momentos considerados impróprios, e é a maneira como esse professor lidava cotidianamente com isso que dizia sobre a sua personalidade.
Reginaldo era um Apolo: alto e forte com pernas longas e firmes de maratonista, mas entrou na sala tropeçando nos móveis, ao ver Juliana. (Suzane Morais)
Gosto da maneira como a ação se contrapõe com a descrição inicial de Reginaldo. Se essa característica de nervosismo e desequilíbrio físico e emocional persistir na presença de Juliana, teremos um detalhe original cômico. Fiquei interessado em saber para onde a escritora levará Reginaldo e Juliana, a fim de aproveitar essa dinâmica interessante que se criou.
Reginaldo entrou na sala, passos pesados, bufando como um touro. Teatralidade de alguém tentando roubar a cena para si. Vinha com um séquito de mecânicos, todos sujos de óleo, graxa, e sabe-se lá o que mais. Pele, roupas e cabelos cobertos por manchas escuras. De cabelos, aliás, Reginaldo não tinha nenhum, e como que compensando pela careca, mantinha uma barba farta, tão imunda quanto o resto. (Felipe Carvalho)
Lendo este parágrafo, o que me chama a atenção é a palavra teatralidade. Por causa dela, não consegui deixar de ler essa cena como parte de uma apresentação teatral, até mesmo um musical. Esse, para mim, é o poder de uma única palavra, um único detalhe original.
Reginaldo entrou na sala.Parou na marca indicada onde deveria aguardar, porém de movimentou um pouco para o lado, seus pés descalsos sentiram um prego saltando de um taco. Foi colocado novamente no lugar como se esse pequeno desconforto fosse parte do procedimento. Começou a brincar com a unha de seu dedão esquerdo com o prego, quando foi advertido que não deveria se mover. (Ulisses Moreno)
Eu estou tão curioso sobre onde Reginaldo está! Pelo contexto, imagino-o num exame médico durante registro militar. Fico imaginando que outras bagagens as pessoas carregam e refletem sobre como leem a cena.

Essa característica de não conseguir ficar parado pode ser um detalhe original, especialmente se ela se espalhar durante o texto, sendo uma parte da característica do personagem. Deste modo, revelará muito sobre como o personagem existe no mundo.
Regiinaldo ficara até mais tarde trabalhando no escritório pela urgência de um relatório. Cochilara na cadeira  .Já eram 10 da noite .O prédio estava às escuras o que lhe despertou certo medo.Juntou rapidamente seus papéis e se apressou em sair dali o mais rápido possível.A chuva lá fora  tornava a  escuridão  mais lúgubre.Descia as escadas às apalpadelas quando ao passar por uma das salas do prédio vazio  ouviu vozes ,risadas,gargalhadas. Acurou os ouvidos Seria capaz de jurar serem vozes só de mulheres. Reginaldo entrou na sala.Tudo às escuras tirando uma vela que se apagou com o movimento da porta. (Pedro Cipolla)
Aqui temos um novo exemplo que é ótimo para a lente da curiosidade, pois o trecho encerra em um ponto que me deixa com vontade de saber o que acontecerá a seguir. Em termos de detalhe original, entretanto, eu não aprendi algo particular sobre a personalidade de Reginaldo, ou mesmo do escritório ou prédio. Nessas horas, como escritor, fico me perguntando: o que eu poderia apresentar para que o leitor entenda melhor que tipo de pessoa é Reginaldo?
Reginaldo entrou na sala. Fechou a porta de alumínio por onde entrou, acendeu a luz neon e mirou seu sofá de veludo vermelho e cinza, prêmio de melhor vendedor do mês da marca de cosméticos que representava, se jogando nele sem nem pensar duas vezes. Apanhou o controle remoto do seu aparelho de som na mesa de canto perto do sofá e imediatamente selecionou sua música clássica predileta: as quatro estações, de Vivaldi. Era dotado de tamanha sensibilidade, tal que enquanto escutava a música vivenciava com facilidade cada detalhe das estações representadas naquela obra, como se numa cena em tempo real. Aquilo era tudo que Reginaldo precisava depois de dez horas de trabalho, empenhado em atender necessidades ímpares de mulheres e homens providos de personalidades diversas a partir dos benefícios de seus produtos. E não era fácil. Nem sempre era divertido e algumas daquelas pessoas eram até repugnantes. Mas ele adorava a sensação de mistério contida em cada nova pessoa que atendia, o suspense do sim ou não para a aceitação do seu produto e o desafio de convencer o cliente até a compra com cada resultado surpreendente do seu produto. Era um homem movido às mensagens, capaz de valorizar cada uma sem menosprezar e sem se fechar em uma cápsula protetora de preconceitos. (Lilian Ribeiro)
Aprecio a construção desse Reginaldo. Gostaria de vê-lo mais em ação para perceber como esses elementos que compõem suas escolhas para a casa onde mora, e então compreender como esses detalhes que tão habilmente o apresentam contam uma história maior não só sobre o que ele fez, mas também sobre como ele habitualmente age.

Com o detalhe original, o que eu busco é aprender sobre o personagem num nível íntimo. Mais do que o que ele faz ou fez, o que ele sente, como ele se apresenta, quem é ele por meio de suas escolhas.
Reginaldo entrou na sala sentindo náuseas. Era sempre assim quando ficava ansioso; não conseguia comer. Tomou um copo de leite e saiu de casa. (Mara)
Minhas perguntas para esse trecho são: o que mais acontece, quando começou, por que o copo de leite, por que ele estava ansioso? Há bastante coisa que dá para explorar a partir destas poucas palavras.
Encerramos aqui a lente do detalhe original.

Tenha uma excelente semana!

Tales do Ninho






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