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Bom dia :)

Meu padrasto lia minhas histórias em quadrinhos quando eu era criança. Ele comentava, indicava formas de melhorar, apontava o que gostava. Era uma mistura de admirador, incentivador e professor. Certa vez, ele me disse algo que carrego tatuado na memória. Ele comentou que meus personagens não tinham alma porque eu não tinha alma. Por trás dessa fala estava a ideia de que para escrever boas histórias, é necessário se importar com a vida, se afetar por ela e viver novas experiências. Como eu vivia isolado no meu mundo particular alimentado apenas pelas ficções dos quadrinhos e da televisão, encontrava pouco espaço para descobrir uma alma que fosse minha.

Decidi compartilhar essa história hoje porque agora consigo compreender o que meu padrasto quis quando me disse isso. Ele não queria me julgar nem me maltratar. Pelo contrário, ele acreditava que verdades brutas são a melhor maneira de aprender. A partir dessa crença, ele construiu suas ações.

Quando escrevemos literatura, é importante conhecermos como nossos personagens pensam. Isso tem a ver com as crenças e os pressupostos que organizam suas vidas. O que eles valorizam? O que eles querem? Em que momento de suas vidas eles construíram o modo de viver que inevitavelmente os colocará em problemas quando nossa história começar?

Na elaboração de um personagem, gosto de me perguntar três coisas: o que ele quer, o que ele acredita que alcançará com isso e quais crenças o impedem de alcançar agora o que ele deseja. Porque se um personagem quer algo e simplesmente vai lá e faz, não temos uma história realmente engajadora nas mãos – afinal, nós reles mortais em geral não temos essa convicção toda. A gente procrastina, sofre, pensa que não vai dar certo, chora, e só depois de muito apanhar é que começamos a mudar a maneira como percebemos o mundo ou a nós mesmos, para só então iniciarmos um verdadeiro movimento na direção do que queremos (e que, às vezes pela ironia da vida, não vai nos dar exatamente o que a gente acha que vai alcançar com isso, mas daí já é tema para outra mensagem).

Toda crença ou pressuposto que um personagem sustenta em algum momento lhe foi útil, mesmo aquelas que no futuro serão as mais autodestrutivas e contraproducentes. Compreender isso é fundamental para que não caiamos na lógica da "crença limitante equivocada que é apenas uma barreira". Uma crença nos limita em certos aspectos e está tudo bem, porque ela serve para organizar o mundo e nossa atuação nele de uma forma determinada.

Se um personagem acredita que homens precisam ser musculosos e viris para serem felizes (talvez porque uma vez viu o pai apanhar de um outro homem que cabia nesse estereótipo), é provável que ele sofra se não se enquadrar nesse corpo. É provável que sofra ainda mais se ele se apaixonar por outro homem.

Se um personagem acredita que amar é se doar inteiramente aos outros, suas chances de encontrar o que mais quer – um amor que cuide dele – podem ser reduzidas à medida que ele abre mão de si mesmo e acaba se envolvendo com pessoas que se interessam mais por esse perfil do que por estar junto construindo uma relação sadia.

Para escrever uma boa história, considero importante conhecer a alma dos seus personagens. E para isso, acho bem importante olharmos para dentro e descobrirmos nossa própria alma.

Por isso, antes de criarmos novos personagens, pergunto: em que você acredita e como essas crenças constroem a vida que você leva?

Conseguimos!

O financiamento coletivo para custear o ingresso para minha imersão em comunicação não-violenta foi um sucesso e alcançamos quase 115% da meta. Isso significa que em breve terei aprendizados quentinhos para compartilhar sobre a CNV e como ela pode se relacionar com as histórias que contamos e os textos que escrevemos. Obrigado por todo o apoio nessa aventura e seguimos!

A propósito, na segunda-feira, dia 11 de março, às 19h30, começa meu novo curso online de Introdução à CNV. Se quiser aprender um pouco mais sobre essa forma não-violenta de cuidar das nossas relações, serão quatro semanas de curso, sempre às segundas. Responda a essa mensagem caso tenha interesse (espero que sim haha!).

Abraços!

Tales, do Ninho






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