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Bom dia :)

Quando falo de escrita compassiva, estou me referindo a um tipo muito específico de olhar sobre o mundo e de tradução em palavras desse modo de enxergar as coisas. A escrita compassiva caminha na contramão de uma certa literatura tradicional que facilmente se baseia em estereótipos para agilizar o entendimento do que queremos passar para o leitor.

A escrita compassiva envolve oferecer ao leitor um pedaço do mundo em sua forma mais crua e sensível, do jeito que nós experienciamos a vida. Deste modo, podemos nos conectar ao máximo com as experiências de quem narra porque essas experiências não estão passando pelo filtro da interpretação prévia.

Desde a semana passada, pedi que os leitores desta newsletter me encaminhassem parágrafos compartilhando alguma cena com escrita compassiva, para observarmos como isso funciona na prática. Hoje seguirei comentando os parágrafos recebidos.

O Fabiano mandou o seguinte texto:

Uma experiência minha que foi triste foi quando eu frequentava fóruns de internet e lá tem sempre o espaço pra tu colocar dados de contato, certo?  E-mail, conta de algum messenger (MSN, ICQ, Yahoo, etc) nomes de personagens dentro do jogo...
Passou-se um bom tempo. Eu tinha uma conta do hotmail que não usava, a tinha feito apenas pra usar o msn messenger, um dia, de brincadeira, fui na caixa postal para apagar possíveis mensagens de spam. Qual não foi minha surpresa ao ver uma mensagem ali, datada de dezembro de um ano que esqueci onde vários amigos conversam entre si, contam o que estavam fazendo. E meu e-mail jogado ali no meio, um e-mail que eu não usava e que nunca divulguei.
Conclusão que tive: as pessoas não lêem nada na internet. Nem mesmo quando você é teoricamente próximo delas.


O ponto desejo destacar é a expressão "que foi triste". Quando dizemos que algo é ou foi alguma coisa, estamos atribuindo uma qualidade a esse algo que independe do nosso olhar. Isso é uma forma de abrir mão da nossa responsabilidade pela avaliação. Eu achei triste ou eu fiquei triste com o que aconteceu são expressões muito diferentes de foi triste. Se digo que algo foi triste, essa característica pertence à coisa que estou avaliando, é externa à mim.  Aescrita compassiva é um convite para assumir a maneira como percebemos e avaliamos o mundo.

O Ricardo mandou o seguinte parágrafo:

Aos 22 anos, decidi antecipar minha crise dos 30. Larguei meu emprego público, que me daria estabilidade pelo resto da vida, minha namorada e família, que haviam me dado estabilidade até aquele momento, tranquei a faculdade e saí do país pela primeira vez. Como parte do programa de voluntariado no qual me inscrevi, passei os 15 meses que se seguiram a essa decisão distante de tudo o que conhecia, tanto nos 9 meses em que vivi numa residência multicultural nos Estados Unidos quanto nos 6 meses de vida rural na Zâmbia. Foi uma experiência intensa e cheia de contrastes: primeiro, o contraste do subdesenvolvimento brasileiro com o desenvolvimento estadunidense; depois, o contraste desses com o não desenvolvimento zambiano; ao mesmo tempo, existiram contrastes psicológicos, em que grandes e péssimos momentos se alternavam e me faziam explorar recônditos mentais que nem imaginava que existiam. Por mais que, no geral, o saldo disso tudo seja positivo, é inegável que algumas vezes me deparei com obstáculos que me fizeram questionar essa decisão e, no limite, flertar com o arrependimento. Mas, no final das contas, sei que essa foi uma das experiências-chave que, em grande medida, me levaram a ser quem sou hoje. E, se sou feliz com o resultado da somatória dessas experiências, então só posso concluir que todas elas valeram a pena.

Na leitura deste parágrafo, percebo que há muitas histórias pedindo para serem compartilhadas. Para fazer isso, acredito que o relato concreto é mais poderoso o que o abstrato. Explico: em vez de falar sobre o contraste do subdesenvolvimento, desenvolvimento e não desenvolvimento, que tal contar de que maneira esse contraste se materializou? O que foram esses grandes e péssimos momentos? Eu quero sentir tudo isso junto com o Ricardo para que eu mesmo possa falar em grandes e péssimos momentos.

Fazer escrita compassiva implica escrever mais para mostrar coisas que poderiam ser resumidas em poucas palavras. Significa, também, ampliar a superfície de contato com o leitor e, portanto, a qualidade da interação e da empatia que se estabelece com ele.

Em resposta ao meu pedido de parágrafos em escrita compassiva, recebi outros textos. Porém, como são maiores que um parágrafo, opto por não fazer comentários individuais aqui. De todo modo, agradeço à coragem e disposição de quem escreveu e encaminhou seus textos. Exercitar a escrita é, sem dúvida, a melhor forma de desenvolver essa habilidade que tanto nos importa.

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