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Você escreve muito bem!
Já ouvi essa frase inúmeras vezes. Já ouvi também suas variações, tanto para o polo positivo quanto para o negativo. Você não sabe escrever. Você escreve maravilhas. Você deveria desistir de ser escritor. Você nasceu para ser escritor. Tem também a variação mais sutil: eu esperava mais de você.

O que todas essas frases têm em comum é a atribuição de uma etiqueta sobre a pessoa. Essa etiqueta é uma validação ou recusa externa, atribuída e verificada por outras pessoas. Ser bom ou mau escritor, neste sentido, é algo que depende não do que fazemos, mas de como o que fazemos é recebido por outras pessoas.

Quando penso no sistema literário, pode até parecer que essa validação externa é positiva. Editoras existem para separar o joio do trigo, não é? Mostrar ao mundo as melhores obras. Ou será que são empresas inseridas num contexto capitalista e de repente pagam distribuidoras e livrarias para garantir que aquele livro sobre o YouTuber X estará na porta da loja? Mais provável que seja uma mistura de ambos – e certamente outros fatores.

Desde criança fui ensinado a depender da validação externa para existir. Respeitar aos pais não importa o que digam, respeitar os professores não importa o que mandem, respeitar os chefes não importa o que exijam. Perceba que essas validações externas geralmente vêm na forma de autoridades, pessoas que entendemos que têm mais (conhecimento, habilidade, poder) que nós, normalmente por mérito da posição que ocupam (pais, professores, chefes).

Validação externa é até gostosa de receber, não vou mentir. Meu problema com ela é que é viciante. Como todo vício, abstinência machuca e preciso de doses cada vez maiores de validação externa para continuar produzindo. Se tiver dúvida sobre como isso funciona, basta abrir a rede social mais próxima.

Hoje, percebo que pais, professores e chefes são, como eu, seres humanos. Ou seja, falhos, quebrados, cheios de dúvidas e com eventuais diarreias. Leitores também são. E do que bem me conheço, às vezes o que leio não faz sentido pra mim e outras vezes releio e faz. Tenho gostos. Tenho preferências. Tenho influências que muitas vezes nem consigo reconhecer.

Em vez de procurar essas etiquetas externas, tenho procurado recuperar meu próprio senso de autonomia. Escrevo não porque quero a certificação de outras pessoas, muito menos para ouvir se vale ou não a pena eu continuar escrevendo. Escrevo porque faz sentido para mim escrever, porque tenho algo a dizer para o mundo.

E se esse algo não está sendo bem ouvido a partir do que escrevo, tudo bem, posso retrabalhar minha escrita, praticar mais, o que for. É um movimento meu, um movimento que independe de alguém me dizer "você escreve muito bem".

Hoje, se alguém me diz "você escreve muito bem" ou "você escreve mal", prefiro perguntar: como meu texto tocou você? Não quero saber o que a pessoa pensa de mim a partir do contato que ela teve com minha arte. Quero saber o que a pessoa pensa dela mesma após entrar em contato com minha arte.

Desafio

Para o desafio desta semana, usaremos a proposta de personagem de Socorro Freire:
  • ocupação: policial
  • paixão: seu labrador preto
  • peculiaridade: cabelos longos, caracolados, passando dos ombros.
  • medo: perder o seu cachorro.
  • interesse: a vizinha casada que mora ao lado de sua casa
O desafio desta semana é escrever este personagem tomando um banho de mar. O que será que encontraremos nesta praia?

Receberei respostas a este desafio por e-mail até sábado, dia 19 de dezembro, às 17h.

Sugestões de leitura

Os desafios recebidos na última semana estão disponíveis neste texto: Em resposta aos desafios que partilhamos no Círculo do Ninho e no grupo do Telegram, publicamos o seguinte texto:

Grupo do Ninho no Telegram

Todos os sábados, das 12h às 18h, o grupo do Ninho de Escritores no Telegram se aviva e conversamos sobre textos, dúvidas, ideias, dicas, sempre em um ambiente acolhedor. No resto da semana, o grupo fica silenciado – de modo que nossas trocas são intencionais.

Quer participar? Então vem com a gente! (você precisará do aplicativo do Telegram em seu celular ou computador para acessar o grupo)
Um abraço virtual!

Tales do Ninho
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