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Bom dia!

Meu trabalho com o Ninho de Escritores é provocar as pessoas a brincarem com a escrita e ajudá-las nesse processo com repertório, ferramentas, incentivo e o que mais me aparecer pelo caminho.

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Há duas semanas, propus um pequeno desafio aqui na newsletter a partir de uma frase singela. A proposta era experimentar a lente da curiosidade.
Joana acordava todos os dias no mesmo horário.

O desafio era responder com:
  • uma versão modificada dessa frase; ou
  • mantenha essa frase intacta e acrescente uma segunda que aumente o nível de curiosidade do leitor.
Recebi cerca de trinta respostas, as quais comecei a apresentar e comentar na mensagem da semana passada, que você pode acessar no arquivo das newsletters passadas.

Na mensagem de hoje, darei continuidade aos comentários, sempre desse lugar de curiosidade, cuidado e busca por melhoria constante. Minhas opiniões e sugestões são isso, opiniões e sugestões. Minha experiência com escrita, revisão e edição de textos não torna a minha opinião melhor que a sua, apenas informada por um repertório específico.

Pois vamos aos textos!
Joana acordava todos os dias no mesmo horário. Não como os militares que por rotina transformam seus corpos em máquinas repetitivas, mas pela extrema necessidade que sua angústia impunha, sobretudo em tempos de novas expectativas. (Viete Freitas)
A Viete me presenteou com quatro versões para esse desafio. Isso é algo que penso bastante sobre qualquer arte: se não for divertido, não é sustentável (ouvi isso de amigo querido que muito me ensinou sobre o quanto jogos e diversão mobilizam seres humanos a fazerem coisas incríveis). Se escrever é um sofrimento para você, por favor procure outra arte pela qual se expressar. Tenho certeza que há algo que será poderoso e, ao mesmo tempo, prazeroso de criar.

Sobre o texto da Viete, estou curioso. O que me deixou interessado em ler mais foram as últimas palavras: "sobretudo em tempos de novas expectativas". Que expectativas? Se parasse na angústia, eu daria de ombros, seria apenas mais uma personagem sofrendo nesse mundo. Entretanto, quando aparecem os tempos de novas expectativas, eu tenho algo para ansiar... E ficar curioso se essas novas expectativas se cumprirão.
Joana acordava todos os dias no mesmo horário. Por enquanto, ainda não podia se dar ao luxo de mudar isso. Por enquanto... (Simone dos Santos)
Em sua mensagem, Simone comentou o seguinte: "geralmente tenho um propósito para minha escrita. Só queria ter a certeza desse propósito para minha vida!". Esses dias ouvi uma música chamada Plene, de Potyguara Bardo. Num certo momento, canta assim: "descobro o sentido da vida e ele é pra frente". É assim que busco viver: caminhando para que eu seja cada vez mais como eu gostaria de ser, curioso, criativo, compassivo, carinhoso. Entendo que o sentido da vida é uma história e eu sou bem bom em inventar histórias.

Sobre o texto, quero destacar a repetição do "por enquanto", que pede atenção direcionada. O texto me diz: tem algo aqui que é importante, perceba, e o que quer que viesse depois teria nas costas a promessa de uma mudança anunciada.
Joana acordava todos os dias no mesmo horário, assim que os primeiros raios de sol entravam pela estreita caverna para onde havia se mudado dois anos atrás. (Luciana Alvarez)
Ainda na linha das brincadeiras, a Luciana propôs mesclar um pouco de Kafka no exercício: "Joana acordava todos os dias no mesmo horário. Até que certa manhã, ao despertar de 'sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso'." Se tem uma coisa que eu gosto nesse mundo (e há várias), é remexer em textos clássicos!

Sobre o texto, acontece aqui algo que comentei semana passada. Estou curioso para saber o porquê de a personagem haver se mudado para uma caverna estreita, mas não curioso sobre o que acontecerá a seguir. Há algo que particular que diferencia essa dentre tantas Joanas e isso me deixa a fim de conhecê-la, mas não preocupado com o futuro.
Todos os dias, no mesmo horário, Joana acordava? (Suzane Morais)
Suzane também mandou várias versões, brincando especialmente com a pontuação para gerar leituras variadas. Embora eu não tenha me sentido particularmente curioso com as variações, optei por destacar essa versão porque ela me deixou pensativo. Li e imediatamente me perguntei o que é acordar? Eu acordo todos os dias de manhã mais ou menos no mesmo horário, mas eu acordo?

Vou parar o comentário por aqui porque preciso pensar mais a respeito disso!
Joana acordava todos os dias no mesmo horário. Abria os olhos às 6:00 horas da manhã. Morava numa quitenete, perdera o emprego, não tinha filhos. (Rosely Belisqui)
O texto da Rosely tem uma frase a mais do que o exercício propunha, mas tudo bem porque as duas primeiras frases facilmente poderiam ser uma só. Peço licença para colocar a lente da economia, sobre a qual: falarei no futuro: "Joana acordava todos os dias às seis da manhã".

Para que eu sinta curiosidade narrativa após a última frase, precisaria de um convite, uma proposta, uma chamada, uma chance de mudança.

Uma pergunta quando usamos a lente da curiosidade é: por que o leitor vai querer continuar lendo?
Joana acordava todos os dias no mesmo horário, levantava-se, tomava seu café e então fazia uma ligação. (Rosângela Caldeira)
Esse texto me lembrou de um cuidado que sempre gosto de apontar: a diferença entre o artigo indefinido e o artigo definido. Uma ligação é algo solto no mundo, que ainda não se sabe sobre. Pode ser uma ligação qualquer, pode até mesmo ser uma ligação importante, mas eu não sei. Se fosse a ligação, por outro lado, tratar-se-ia de uma ligação específica e, portanto, mais concreta.

Nesse jogo da escrita, uma palavrinha que mudamos pode alterar o curso dos sentidos. Que delícia!
Joana acordava todos os dias no mesmo horário só para se certificar que estava realmente sonhando. (Matheus Balthazar)
O Matheus também trouxe mais de uma proposta, e escolhi essa porque gostei da confusão. Copio as palavras do autor: "Minha hipótese: Ao criar um cenário confuso, o leitor precisa parar para pensar sobre a frase, criando sua própria resposta que faça com que encontre seu próprio sentido naquilo que lê. Será que ela acorda no sonho? Quem precisa acordar no mesmo horário para saber que está sonhando?"

Devo dizer que concordo com a interpretação de Matheus. O absurdo da situação me deixou curioso para saber mais sobre ela e o mundo no qual ela habita. Interessante, não?
Vou parando por aqui na newsletter de hoje, mas qualquer coisa você já sabe, é só responder este e-mail e nós estaremos em contato.

Tenha uma excelente semana!

Tales do Ninho






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