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A 19ª newsletter do RelevO: typosquatting, Van Eyck e futebolistas-pokémons
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edição #19 – 9 de setembro de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella

BOM DIA, leitor da Enclave — a newsletter que, como todas as outras, não responde a comandos de voz.

Se você leu sobre a querida Enclave em algum lugar, favor nos apontar onde. (Mesmo. Basta responder o email: a caixa de entrada lotada será aquela de Daniel Zanella, não a minha). Nosso número de assinantes subiu muito (e subitamente!), mas ainda não descobrimos como ou por quê, sendo uma recomendação pública a única explicação possível. Dessa forma, estamos aflitos e gostaríamos de demonstrar gratidão aos entes responsáveis por meio de dedicatórias, abraços e um optativo banho de chantilly
.

***
 
– O Jornal RelevO LANÇOU sua primeira antologia, compilando contos, traduções, poemas, crônicas e críticas frutificados em seus cinco anos de existência. A obra, já avaliada por um jornalista da New Yorker como "sublime, refreshing: a união entre James Joyce e Atividade Paranormal 3", pode ser adquirida em contato direto com a alta cúpula do RelevO. Se preferir, basta mandar um email para jornalrelevo@gmail.com. Novamente, a caixa de entrada lotada não será a minha.
– O RelevO de setembro está prooooontooooo!
Atrasamos com essa coisa de antologia (e feriados!), mas você já pode vê-lo aqui.
– Tenha outra boa leitura, e não se esqueça: cada vez que você recomenda a Enclave, uma pipoca deixa de queimar; algo não gruda na sola do tênis; você fica milionário.

#1 Na falta de palavras formais para definir o Retábulo de Ghent (em resolução maior aqui), a obra pode ser facilmente descrita como cabulosa. Considerando o fato de que rendem livros, no plural, as inúmeras observações sobre esse políptico – pra que se contentar com trípticos? –, nos restringiremos a um detalhe afetuoso de sua concepção.

Estamos tratando de um trabalho imenso em qualquer aspecto; uma preciosidade que já foi
roubada, queimada, escondida, e na qual você pode trafegar visualmente por horas a fio. Não à toa, a Adoração do Cordeiro Sagrado – como também é chamada – pode ser considerada a obra de arte mais disputada da história. Sua autoria é atribuída aos irmãos Hubert e Jan Van Eyck, o segundo muito mais consagrado que o primeiro, sobre quem pouco se sabe.

É difícil ter certeza quanto à participação exata de cada um dos Van Eyck na obra. Hubert era o encarregado, mas sua morte em 1426 não o permitiu acompanhar a finalização do Retábulo,
entre 1430 e 1432. E é aí que, em meio a tantos traços, representações e formas; escondida em seus 3.5m de altura (e 4.6 de largura, quando aberto), consta uma inscrição notável. Essa indica que o trabalho foi iniciado por Hubert Van Eyck, "maior que qualquer um" (maior quo nemo repertus), e terminado por Jan Van Eyck, autodenominado arte secundus, isto é, o segundo melhor da arte. Há tanta autoconfiança quanto beleza, não?

Aliás, assim é o Retábulo fechado:
 

Ainda falaremos do Retábulo. E de Jan Van Eyck. E da assinatura de Jan Van Eyck


[Como sempre, dica da Fernanda Benini!]


#2 A Igreja do Santo Sepulcro, onde segundo a tradição cristã Jesus Cristo foi crucificado e sepultado, é um local sob constante tensão. Não bastasse estar em Jerusalém, cidade sagrada para as três grandes religiões monoteístas, a igreja é dividida, desde o século dezoito, entre seis diferentes ramos do cristianismo: as igrejas Ortodoxa Grega, Apostólica Armênia, Católica Romana, Ortodoxa Copta, Ortodoxa Síria e Ortodoxa Etíope partilham a custódia e a jurisdição sobre o espaço.

Os limites e os poderes de cada secção são, claro, motivo de discussões acaloradas e disputas até os dias atuais, mas uma certa harmonia é mantida, visando à segurança e à tranquilidade dos numerosos turistas e peregrinos (que, afinal de contas, são a maior fonte de renda). Além da eventual
briga entre monges, ou hospitalizações decorrentes de mudanças de posição de uma cadeira, essa separação gera algumas situações no mínimo curiosas, como é o caso da Escada Imóvel.

 

Há mais de 250 anos, ali ela está
 

Trata-se de uma simples escada de madeira que repousa logo abaixo de uma janela da fachada. Não se sabe quem – ou a qual das igrejas ele pertencia – mas alguém a deixou por lá, e pelo jeito não contou pra muita gente o porquê. E ninguém ousa movê-la. O primeiro registro da icônica escada data de 1757, e nesta foto de 1885 é possível avistá-la, ainda que com dificuldade.
 

Mas como isso é possível? Com todas as disputas por controle dentro da própria Igreja do Santo Sepulcro, ficou decidido que nada poderia ser mudado ou decidido na igreja sem o consentimento de todas as outras entidades, o que imaginamos que seja um tanto complicado, mesmo para os assuntos mais simples. Também por isso o templo não passa por uma reforma há pelo menos 130 anos.

Com o passar do tempo, a escada tornou-se um símbolo do
status quo, uma lembrança do embate interno no cristianismo e da situação político-religiosa conflituosa na região, além de uma das atrações turísticas mais interessantes desse templo
.


#3.a. Typosquatting é uma das malandragens mais peculiares de nossa era. Considerando que o squatting corresponde à ocupação de um espaço não utilizado (ou abandonado, em construção, etc), e um typo nada mais é do que um erro de digitação, o typosquatting surge quando você digita erroneamente um endereço e é redirecionado para uma página que nada tem a ver com aquela procurada.

Um exemplo claro? A url
nytimes.com naturalmente lhe transfere ao site do New York Times. Ao trocar o y por t – um erro bobo de digitação – você acessa o ntyimes.com, que não tem absolutamente nada, conforme ilustra nosso querido NowIKnow. Se procurar, você encontrará várias dessas situações, embora provavelmente já tenha parado em páginas semelhantes sem querer.

Dessa forma, o dono do domínio enganoso tem a possibilidade de conseguir dinheiro com anúncios, ou acessos; ou simplesmente vender o endereço ao interessado principal — nesse caso, o New York Times. Para se ter uma ideia, só a Lego já gastou mais de 500 mil dólares
na prevenção de typosquattings. O Twitter, preparado, te redireciona caso você digite "twiter.com", e o Facebook, diante de "facebok.com". Essa contextualização nos leva ao...

... 3.b., ou A Odisseia de Neil Moore, o homem que se libertou da prisão
utilizando um email. Ele, que de bancos já havia roubado quase dois milhões de libras esterlinas (em oito operações, normalmente se passando por funcionário), foi preso em março deste ano. Poucos dias após a sentença, no entanto, quando os procuradores de seu caso tentaram buscá-lo em sua cela, não havia ninguém.

Moore, cuja sentença cabia à Corte de Southwark, acabou liberado por um comunicado da Corte de Southwalk, com l. O email contendo a novidade, enviado à prisão que o abrigava, deveria vir de
"@hmcts.gsi.gov.uk", mas saiu do domínio "@hmcts-gsi-gov.org.uk".
Ninguém percebeu.

O mais curioso é que Neil Moore, após alguns dias solto, simplesmente voltou e se entregou. Entre seus talentos, destacam-se uma excelente
imitação de vozes e, aparentemente, bom humor: Moore registrou o domínio enganoso no nome de Chris Soole, nada menos que o policial encarregado de investigar seu caso. Ah, sim, a página foi registrada de dentro da prisão, com um celular que o condenado evidentemente não poderia ter em mãos.

No fim das contas, o artista da trapaça se declarou culpado de todas as acusações a que foi submetido. Concluímos, portanto, que se Neil Moore fosse um personagem de Onze Homens e Um Segredo (foto), ele seria vários personagens de Onze Homens e Um Segredo. Esse comentário estava pronto muito antes do próprio texto.


Já assistimos várias vezes sem piscar: algum gênio da montagem audiovisual uniu diversos personagens icônicos (Neo, Blade, Robocop, Exterminador T-101, Tony Montana, jedis, ...) em sequência que se passa numa boate, ou balada, ou danceteria — como preferir, pois as três palavras continuam terríveis. Trata-se de uma cena com dois Tom Cruise, dois Al Pacino, dois Keanu Reeves, dois Ewan McGregor, dois John Travolta + x + y. Você pode assistir clicando aqui.


Cvitanich, Lovenkrands, Denneboom, Lichtsteiner, Pogba, Salatiel, Belfodil, Mudingayi, Sivok, Khumalo, Inler, Behrami, Crouch, Mitroglou, Samaras, Charisteas, Khedira, Hangeland, Dhorasoo, Belozoglu, Mansiz, Nainggolan; Jedvaj -> Januzaj; Kidiaba, Toloi, Mirallas; Benteke -> Dembele; Overmars; Obi -> Obi Mikel -> Obafemi; Cruyff, Rep, Kluivert, Jongbloed, Krol, Strik, Suurbier, Haan; Albiol -> Albelda -> Arbeloa; Geels, Trejtel, Lubse, Poortvliet, Ikpeba, Brandts; Cocu -> Kanu -> Yakubu; Bergkamp, Mulder, Aboutrika, Hasselbaink, Hesp, Jonk, Kroos, Ozil, Tasci, Boateng; Kalou -> Kuranyi; Zenden, Konterman, Westerveld; Havenaar -> Huntelaar; Ooijer, Heitinga, Doumbia; Lahm -> Landzaat; Jaliens, Boulahrouz, Shaqiri, Kabungu, Kapllani, Skrtel (...), Candreva, Onazi, Tigana, Glik; Etcheverry -> Etxeberría; Pantilimon, Krohn Dehli; Tsiartas -> Tzavelas; Blomqvist, Chivu, Kiessling, Volkan; Lukaku -> Kakuta; Taarabt, Chamakh; Aogo -> Arango -> Alkorta; Dzeko; Baloy -> Behrami; Evair, Cabaye; Kalac -> Klasnic; Amorebieta, Karanka, Yeste -> Yepes; Gurpegui, Urzáiz; Mertesacker -> Metzelder; Jankauskas, Wilmots, Arshavin, Skarbalius, Pahars, Balakov -> Berbatov, Diamoutene; Torosidis -> Tachtsidis; Bosingwa; Opdam -> Obertan -> Obraniak -> Pogrebnyak; Ogbonna; Vertonghen -> Vermaelen; Matri -> Matic -> Modric; Vorobey -> Voronin; Benatia, Kaboul, Bentaleb, Grobbelaar, Hislop, Paintsil; Conca -> Kolkka -> Okaka; Puncheon, Gralak, Cattermole, Mondragon, Toprak, Ormondroyd — pronto, mais de 150! Agradecemos especialmente a Leonardo Bonassoli, Nelson Oliveira e Gabriel Mussiat.
"Belo como [...] o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação."

 
Conde de Lautréamont, 1868 [Fonte]
Nada, pois somos perfeitos, impecáveis, completamente à prova de — PORRA!, deixei o leite queimar de novo.
 
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