Copy
A 18ª newsletter do RelevO: Pontormo, chiliques, pichação no Império Romano e Passeata Contra a Guitarra Elétrica
Veja esse email no browser
edição #18 – 24 de agosto de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella
BOM DIA, leitor da Enclave — a newsletter que inventou a ascensão para baixo.

Ainda que seja estranho trabalhar com boas notícias, observamos um grande aumento de assinantes da melhor newsletter não lida do Brasil. Como tal crescimento está claramente fora do padrão, resta-nos perguntar: de onde você vem, novo assinante? Quem nos recomendou?
Posso te considerar meu amigo?

***
 
– O Jornal RelevO lançará sua primeira antologia na próxima quinta-feira, 27 de agosto, compilando contos, traduções, poemas, crônicas e críticas frutificados em seus cinco (!) anos de existência. Dessa forma, o livro será vendido a R$ 30 na Escola de escrita, em Curitiba. Para quem não estiver aqui, quem não for daqui e quem tiver vergonha de aparecer, basta entrar em contato para que façamos a obra chegar em você — e sem papel de presente do sex shop. Tem evento no Facebook, e lá você pode conferir se o seu alvo romântico comparecerá.
– Não deixe de ler o
RelevO de Agosto! Também aceitamos quem finge ler e puxa assunto sobre.
– Tenha uma boa leitura, e lembre-se: cada vez que você recomenda a Enclave, um sapatênis é incinerado.

#1 A cantora e pimentinha Elis Regina foi o grande nome por trás da Passeata Contra a Guitarra Elétrica, que aconteceu em São Paulo, na noite de 17 de julho de 1967, quarenta e sete dias após o lançamento do absoluto Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles [nota do editor: E DO PRIMEIRO DISCO DO BOWIE]. Entre os músicos participantes ao lado de Elis, estiveram Geraldo Vandré, Edu Lobo, Jair Rodrigues e Gilberto Gil, que até hoje se justifica.

A marcha teve início no Largo São Francisco e percorreu até o Teatro Paramount, exatamente onde Elis dividia com Jair Rodrigues a apresentação do programa musical O Fino da Bossa, exibido na TV Record. O programa vinha
perdendo audiência para o concorrente da Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo e Wanderléa, que já usavam e abusavam da guitarra elétrica e do iê-iê-iê.

A ideia de Elis Regina era formar a
Frente Única da MPB, que se propunha a salvar a Música Popular Brasileira (ou a sua própria carreira) através da negação do uso da guitarra elétrica, supostamente o grande símbolo do imperialismo norte-americano. Em uma época na qual ficava difícil apontar um número de participantes com precisão, acredita-se que tenham participado da marcha cerca de 300 pessoas.

A própria Elis Regina, não muito tempo mais tarde, participaria do programa da Jovem Guarda e até chegaria a
gravar Beatles. Gilberto Gil, menos de três meses depois, conquistaria o segundo lugar no Festival de MPB da Record, em uma apresentação que chamou atenção exatamente pelo uso da guitarra elétrica, tocada por Sérgio Dias, que participou do número de Gil junto com Os Mutantes.

Teve início o Tropicalismo.

 
[por Matheus Chequim]


#2 A Deposição de Cristo, de Pontormo, sem dúvida figura entre as pinturas mais importantes do Cinquecento Italiano. Finalizada no ano de 1528, ela apresenta basicamente tudo que uma pintura Maneirista deve ter: 

– Corpos Flutuantes. As leis da física não interessam aos maneiristas. A Renascença teve seu pico na virada do século com
Da Vinci — a natureza já havia sido domada, estudada, reproduzida e o celestial volta a ter seu lugar. Poses e cenas impossíveis são o charme da obra. O que dizer do moço segurando Jesus enquanto se apoia em três dedos do pé?

– Emoção, Intensidade. Após a
serenidade da Alta Renascença, há um movimento em direção a cenas mais dramáticas. Os rostos são altamente detalhados e os olhares de cada personagem encaminham a visão para uma foco distinto.

– Cores. A liberdade artística também se traduz em cores mais experimentais. Tons de rosa, verde e azul são usados quase como uma segunda pele, com um objetivo
 mais decorativo do que descritivo. Mesmo em quadros mais formais, pode-se observar um protagonismo de cores fortes, ou simplesmente fora do padrão.

– Corpos Retorcidos (e distorcidos). Mesmo caso do primeiro item. A beleza é mais importante do que a precisão. Com isso vêm os pescoços e dedos compridos, as colunas tortas, corpos alongados, e a confusão de mãos da Deposição.

– Organização. Apesar de o Maneirismo ser um movimento de quebra, algo da formalidade das composições foi mantido. Analisando a Deposição, é fácil se perder em meio a tanto movimento e tantos personagens, mas ainda assim é possível identificar um triângulo, formado pelos rostos da Virgem e dos dois seres que levantam Jesus. Além de enquadrar o personagem principal, essa disposição traz equilíbrio e rigor à tela. Outro exemplo, do mesmo Pontormo, é a
Ceia em Emmaus.

– Por último, mas não menos importante: um 
Jesus Ruivo.


#3 O ano de 79 d.C. pode não trazer muitas lembranças (!), mas os nomes Pompéia e Vesúvio certamente o fazem. Devido a seu ótimo estado de conservação, as ruínas da cidade são surpreendentes. Protegidos por cinzas e lama, as construções, objetos e até mesmo corpos das vítimas se mantiveram intactos por centenas de anos. Assim, foram encontrados exatamente como estavam quando houve a erupção do vulcão.

Mais do que isso, porém, várias das construções se preservaram tanto que os arqueólogos puderam ler as pichações encontradas nas paredes da cidade – fossem elas nas ruas, bares, bordéis, etc. Frases como “Atimetus me engravidou” e “Phileros é um eunuco!”, aparentemente, não eram fora do comum. Para citar alguns casos:

– “Apelles Mus e seu irmão Dexter, cada, prazerosamente tiveram relações sexuais com duas meninas, duas vezes.”
– “Chie, eu espero que suas hemorroidas esfreguem-se tanto juntas que elas machuquem muito mais do que já machucaram!”
– "Epaphra, você é careca!"
– “Theopilus, não faça sexo oral em mulheres contra a parede da cidade como um cachorro.”
– “Chorem, garotas! Meu pênis desistiu de vocês. Agora ele penetra traseiros de homens. Adeus, feminilidade maravilhosa!”

Outros exemplos (em inglês)
aqui.
 
[por Amanda Arruda]

#4  Imagine-se, leitor, num concerto de música erudita. Abrem-se as cortinas e entra a numerosa orquestra. Aplausos tomam os ares enquanto o maestro se posiciona e abre a partitura. O público se silencia enquanto aguarda. Tudo pronto: o maestro faz um sinal com sua batuta e... Nada acontece. Os músicos permanecem parados, seus intrumentos repousados sobre o colo, os braços todos cruzados. Não há música, não há movimento.

Progressivamente, você começa a perceber os ruídos ao seu redor: pessoas se mexendo nas poltronas, tosses, pequenos cochichos, os passos de alguém que, talvez indignado, sobe o corredor em busca da saída. Passados alguns minutos, o maestro abaixa os braços, a orquestra se levanta, o teatro irrompe em aplausos e você se pergunta: o que aconteceu?



Partitura de 4'33"

 

Bom, não podemos garantir nada, mas é possível que você tenha precenciado uma performance de 4'33", do compositor experimental americano John Cage. A composição de 1952 é um dos momentos mais importantes da obra do controverso (e esquisito) vanguardista. Ao contrário do que é comumente acreditado, a peça não é composta por quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio.

Ao deixar a orquestra silenciosa, Cage – que acreditava que qualquer som produzido poderia ser considerado música –, traz o holofote para o resto do teatro: a "música" passa a ser todo e qualquer ruído que possa ser ouvido durante esses meditativos minutos.

Cada perfo
rmance é, dessa forma, única. Mais ainda: cada espectador a perceberá de maneira diferente, dependendo de onde estiver sentado e no que estiver concentrado. Em algumas performances, o maestro dá as costas à sua orquestra e passa a sinalizar – emoldurar – os barulhos que ouve com os gestos de sua batuta.

Extra: conheça o
Piano Preparado, instrumento desenvolvido por Cage, que associava ao piano elementos de percussão. Aproveite e ouça 'Jynweyth Ylow', uma das faixas em que Aphex Twin usa o tal piano.

 

Colônias espaciais esboçadas pela NASA nos anos 1970. Mais imagens aqui.
 



Tom Zé na Suíça: "vai pra porra!!!" (vídeo).
Fernando Collor no SBT: "o pior disso tudo é que uma merda como essa se torna verdade!" (
vídeo).
Fernando Collor com Sônia Bridi – greatest hits: "isso é uma pantomima, uma patuscada!"; "é uma fantasia, um devaneio; um sonho de uma noite de verão!"; "você não está aqui de boa fé!" (
vídeo).
Jorge Constrangedor Kajuru e a ausência de José Mourinho (
vídeo).
Vanderlei Luxemburgo vs Marcelinho Carioca: "você é moleque!" (vídeo).
Orestes Quércia no Roda Viva: "caluniador! Mentiroso! Canalha! Malandro! Safado! Você quer ganhar no grito!" (
vídeo).
João Kléber e um nada convincente piti para todos os lados (
vídeo).
Caetano Veloso no VMB, com David Byrne: "vergonha na cara e bota essa porra pra funcionar!" (
vídeo).
Bônus: soft chilique — Caetano Veloso e a crase (
vídeo).

Por fim, apenas porque esse momento deve ser lembrado todo dia,
João Gordo vs Dado Dolabella.
"Minha maior dor na vida é [saber] que nunca poderei ver eu mesmo me apresentar ao vivo."

 
Kanye West, 2009 [Fonte].
A lista ficou duplicada. A segunda metade, porém, pertencia ao rascunho, e não corresponde às operações da Polícia Federal de 2015, mas sim de 2006. Nota-se pela cor diferente.
 
Enclave é a newsletter semanal do Jornal RelevO. Se você recebeu esse email, é
porque aderiu ao nosso mailing ou está em nossa lista de contatos (aí tomamos essa liberdade).

Se não quiser mais receber nossos emails, você pode remover sua assinatura clicando aqui 
ou alterar suas preferências nesse link. Mas prometemos não trazer nenhum textão do Facebook
para a sua lista de emails. Você pode ler todo o arquivo do jornal aqui.


IssuuFacebookTwitter