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A 12ª newsletter do RelevO: desconhecida do Sena, David Bowie e gol contra intencional
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edição #12 – 1ª de junho de 2015
editor Mateus Ribeirete   editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella

BBBBBEEEEEEMMMMMM-VINDOS à Enclave! Numa edição mais eclética do que a normalização do ecletismo musical, vamos de um fascínio artístico pitoresco à provável partida de futebol mais estranha de todos os tempos, passando por Watchmen, um labirinto e David Bowie – mas não David Bowie atuando no filme Labirinto. Ou Bowie jogando futebol. Ou Bowie no Watchmen. Ou melhor, na verdade Bowie também figura no Watchmen. Bowie está em tudo. Atente-se, portanto, e cuidado! Tenha uma boa leitura. Isso se você ler. O que certamente não precisava ser escrito, dado que, caso você sequer tenha aberto o email, etc etc etc.

***

Não esqueça de conferir o RelevO de maio. Além dele, lançamos a Edição Especial Rabo de Galo, curta-metragem de Moira Lemos e Jonathan Van Thomaz, em produção. Você deveria dar uma olhada aqui, ou aqui, ou aqui. Todos os aqui são o mesmo link. Aqui também.
 

 

#1 L’inconnue de la Seine (“a desconhecida do Sena”) é um dos mais belos enigmas dos últimos tempos. Se você ainda não conhecia essa história, que envolve água, morte e beleza, certamente já viu, em algum momento da vida, o rosto da jovem misteriosa que se afogou no Rio Sena na década de 1880. Quando encontrada, causou muito alvoroço pela expressão anômala de satisfação que estampava seu rosto sem vida. Seu corpo foi exposto no morgue de Paris, para que alguém pudesse a identificar, criando uma espécie de espetáculo para os curiosos. Quanto a seu nome e procedência, no entanto, ninguém jamais soube responder.

Como não havia sinais de agressão física, acreditava-se que se tratava de suicídio. Um dos legistas ficou tão encantado com sua beleza que decidiu criar uma máscara utilizando um molde de seu rosto, o qual sorria como se soubesse os efeitos que causaria. Nunca foram esclarecidos quais poderiam ser seus motivos para tirar a própria vida, o que abriu espaço para muitas especulações e criações fictícias sobre sua história, principalmente as que envolviam alguma tragédia amorosa.

Suas feições, consideradas tão sublimemente enigmáticas quanto às de Mona Lisa, ganharam destaque na sociedade boêmia parisiense, um mistério perfeito para as exacerbações românticas e mórbidas da época – muitos autores e artistas possuíam uma cópia da máscara mortuária pendurada em suas paredes, vide
essa imagem. Desde então, diversas obras literárias foram escritas em referência à garota submersa, como Ensaio Sobre Água e Sonhos, de Gaston Bachelard; Os cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke, e o poema de Vladimir Nabokov, L’inconnue de la Seine.

Em 1958, Asmund Laerdal, norueguês fabricante de brinquedos e manequins, decidiu criar um boneco para que os socorristas pudessem praticar as técnicas de salvamento. O rosto da Desconhecida do Sena serviu-lhe de modelo para a criação do boneco,
batizado de Resusci Anne, alterando apenas o misterioso sorriso para uma boca aberta. Rescusci Anne é utilizado até os dias atuais.

 

[por Carolina Cotrim]


#2  Franco Maria Ricci – não confundir com Sandro Meira Ricci –, foi editor de arte por mais de cinquenta anos, isso porque o italiano já se aposentou. Foi ele quem publicou, por exemplo, o incrível Codex Seraphinianus, de Luigi Serafini, uma enciclopédia de seres surreais escrita em alfabeto ininteligível. A Ricci Editore também se responsabilizava pela revista bimensal FMR, conhecida pela beleza das edições, descontinuada alguns anos atrás, ainda que confirmada para retornar no ano que vem. Uma das razões para sua aposentadoria foi a construção de um labirinto. Um enorme de um labirinto.

Cobrindo mais de sete hectares (ou 70.000 m²), tal labirinto já é o maior do mundo. A estrutura está localizada nas proximidades de Parma e
é aberta para visitação. "O espaço verde", informa-nos Fernanda Massarotto, "é também um ateliê a céu aberto pois abriga a sede da editora de Franco Maria Ricci com mais de 500 obras de arte entre quadros, esculturas, peças de antiquariado e objetos de design contemporâneo como, por exemplo, um automóvel Jaguar dos anos 60". Segundo Ricci, sua ideia havia sido há muito confidenciada a ninguém menos que Jorge Luis Borges, ele próprio familiar à temática de labirintos em sua obra*.

Esse vídeo, sobrevoando o local, demonstra um pouco a dimensão do negócio todo.
— Mais sobre as estruturas contidas no labirinto
aqui (em inglês).
 

[obrigado, Amanda Arruda!]


(* - Mesmo. Tanto n'O Aleph, quanto em Ficções, vários contos lidam explicitamente com labirintos, além de jardins, prisões e desertos. Não à toa, Labyrinths é uma coletânea de contos do escritor argentino traduzida para o inglês).


#3 Quem vigia aqueles que vigiam os vigilantes? Independentemente de gostar de quadrinhos, de cinema ou de adaptações dos romances gráficos ao cinema, a cena dos créditos iniciais de Watchmen (2009) é sensacional. A tal ponto que a ácida crítica à obra publicada na New Yorker, após comparar a película com uma cirurgia de duas horas e meia, postula que "a boa notícia é que você não precisa permanecer até depois dos créditos iniciais — facilmente o ponto mais alto do filme". Watchmen, por sinal, é um desses filmes bem divididos entre adoradores e detratores.

Partindo do romance gráfico de Alan Moore (A Liga Extraordinária; V de Vingança – também transformados em cinema), a obra claramente respeita bastante seu texto-fonte, transportado à tela de maneira muito próxima à criação de Moore. No enredo de ambos os títulos, então, super-heróis existem e vivem no meio de uma clara tensão política entre Estados Unidos e União Soviética, diante do terceiro mandato de Richard Nixon, em 1985. Os conflitos se iniciam com o assassinato de Edward Blake, ele próprio herói aposentado; O que faz da cena mencionada algo tão memorável, na verdade, é justamente a contextualização desse universo — cada corte permite diversos hipertextos.

Nos seis minutos de ambientação –
veja-os aqui, ou aqui – , o espectador atento, ou com disposição de parar em cada plano, pode observar diversas referências históricas e ficcionais. Entre elas, estão as famosas fotografias V-J Day in Times Square e Aquela-da-flor-no-rifle; o bombardeiro Enola Gay;
Leonid Brezhnev e Fidel Castro; assassinato de John Kennedy; A Última Ceia; Batman; Andy Warhol e Truman Capote; a chegada do homem na Lua; Village People, David Bowie e Mick Jagger, tudo reescrito na realidade da obra. A sequência ainda conta, implicitamente, a história dos Minutemen, super-heróis já envelhecidos ou mortos quando a narrativa tem início. Toda a abertura é acompanhada po
r 'The times they are A-changing', de Bob Dylan.

(Mais sobre o assunto,
em inglês).

#4 Partindo da premissa de que futebol é arte, a absolutamente caótica partida entre Barbados e Granada, nas eliminatórias para Copa do Caribe de 1994, seria uma peça de teatro que você não sabe se qualifica como genial ou apenas constrangedora. Isso porque, em um contexto muito próximo a alguma sketch de Monty Python, as duas seleções trataram de defender o gol adversário. Marcar um gol contra, pois, era do interesse de Barbados – e posteriormente o foi também para Granada.

A falta de nexo disso tudo se deve ao regulamento bizarro do curtíssimo torneio. Num grupo de todos contra todos entre três seleções, 1. Toda partida empatada tinha uma prorrogação; 2. Toda prorrogação estaria apta ao gol de ouro, isto é, um gol que finaliza o jogo; 3. Todo gol de ouro contaria como dois (!) gols. Dessa forma, Barbados, que chegou à última rodada com zero ponto e saldo negativo, precisava vencer Granada – com três pontos – por pelo menos dois tentos de diferença para se classificar.

E Barbados de fato abriu a necessária vantagem de dois gols. Aos 37 do segundo tempo, porém, Granada diminuiu. Com apenas sete minutos para o fim, portanto, a seleção barbadiana se viu diante da peculiar bifurcação entre retomar as duas redes de vantagem, ou empurrar a bola na própria meta, levar o jogo à prorrogação e lá, com trinta minutos à disposição, perseguir um gol que valeria como dois.

 


Assim sendo, Barbados deliberadamente realizou um gol contra, empatando a peleja em 2 a 2. Ao perceber a cagalhança em que havia se metido, a seleção de Granada também tentou desferir um golpe em si mesma, dado que um eventual 3 a 2 de Barbados ainda classificaria Granada. Dessa forma, os barbadianos passaram o resto do jogo defendendo as duas traves – com sucesso. Na prorrogação, para encerrar todo o nonsense com ares ainda mais mitológicos, Barbados de fato marcou um gol com valor duplicado, consequentemente se qualificando para a Copa do Caribe, na qual caiu ainda na primeira fase.

 


— Interpretação de Nikola Tesla, dando o inegável tom sci-fi para O Grande Truque (2006).
— A música '
Space oddity', sobre um astronauta preso no espaço. Lançada um ano antes do homem ir à Lua, acabou utilizada pela BBC na cobertura de tal evento;
Ziggy Stardust, personagem alienígena que tanto (o) popularizou. Conceito primordial para o disco e eventuais turnês de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972);
— Referências a Bowie nos
jogos Metal Gear;
— A música '
Life on mars?'. O seriado Life on Mars (2006-07);
— Protagonista do filme O Homem que Caiu na Terra (
1976), no qual interpreta um alienígena caído na Terra – ah, vá –, em busca de recursos para seu planeta natal. Foto acima;
— O disco PERFEITO E IRRETOCÁVEL Low (1977), cuja capa deriva de uma cena d'O Homem que Caiu na Terra. Algumas das músicas tiveram seu pontapé inicial com o filme em mente, dado que Bowie assinaria a trilha sonora — o que não aconteceu;
— Duncan Jones, seu filho, dirigiu dois dos melhores filmes de ficção científica da história recente: Lunar (
2009) e Contra o Tempo (2011);
— Ser de outro planeta, indicando-o pouco a pouco pelos itens citados acima (carece de fontes)
.

(Considerações excluídas: aparição no filme de Twin Peaks que cronologicamente antecede a série; protagonismo em Labirinto (1986); domínio do espaço-tempo a ponto de estar sempre à frente da civilização. Sempre. À frente. Da civilização.)

 



"Enquanto a distinção entre arte e não-arte ainda tiver alguma função, pode-se considerar como arte, independentemente de considerações estéticas, textos compostos dentro de um determinado sistema sígnico, que a comunidade interpretativa permite, ou mesmo exige, que sejam lidos como 'obra de arte'."

 
Claus Clüver, 2001
(Fonte:
Floresta Encantada: Novos Caminhos da Literatura Comparada, p. 338).


 

Pelo visto, nenhuma. Estamos impossíveis!
 
 
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