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A 16ª newsletter do RelevO: cartuns racistas, Brazil de Gilliam e coelhos
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edição #16 – 28 de julho de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella
BOM DIA, leitor da Enclave — a melhor newsletter que ninguém lê. A seguir, dois parágrafos praticamente idênticos aos da edição anterior. E várias coisas legais. Que ninguém vai ler.
***
– Não deixe de conferir o RelevO de Julho, notadamente acima da média. Nas páginas centrais, elaboramos uma Copa Libertadores de Escritores Latinos, na qual Vargas Llosa e García Márquez finalmente podem se arrebentar.
– Tenha uma boa leitura, e lembre-se: a Enclave é uma newsletter gratuita, legal e tão amadora quanto uma bomba caseira. Qualquer recomendação sua nos ajuda mais do que você imagina.


 

#1 A dita Era de Ouro da Animação nos EUA, entre os anos 1930 e 1960, deu origem a muitos dos personagens e estúdios mais conhecidos e importantes do gênero até hoje. Mickey, Pernalonga, Pica-Pau, Betty Boop e Tom & Jerry são apenas alguns dos frutos dessa geração. Ao mesmo tempo, nessa época foram produzidos alguns dos cartuns mais ofensivos já financiados por grandes produtoras.

O caso mais expressivo é o dos Onze Censurados, um grupo de
onze curtas banidos em 1968 pelo seu conteúdo altamente racista. Os desenhos são carregados de estereótipos pejorativos do negro norte-americano da virada do século: preguiçoso, desonesto, especialmente afeito a melancias, frango frito e ao Jazz, gênero de raízes marginalizadas. A própria aparência dos personagens tem origem no humor discriminatório: a estética do Blackface surge nos Estados Unidos após a Guerra Civil como parte dos populares shows de menestrel, espetáculos teatrais cujos atores – em geral brancos – interpretavam personagens negros com o rosto pintado com carvão (exceto a região em volta da boca, o que contribuía para a aparência símia) e os trejeitos "incivilizados" bastante exagerados.

Embora nem todos os cartuns dessa lista tenham sido repudiados pelo público (Tin Pan Alley Cats, afinal, é repleto de referências e caricaturas de músicos negros como
Fats Waller e Louis Armstrong), a estética geral das produções foi suficiente para que fossem permanentemente retirados de circulação. A permanência desse tipo de humor não agradava muito um país que começava a colher os frutos de um extenso Movimento por Direitos Civis de minorias. Em 2010 os curtas fizeram sua primeira exibição pública em quarenta anos no festival de cinema clássico da TCM.

Se você ficou curioso, basta acessar essa
playlist com algumas das infames animações.

PS: no filme Bamboozled
(2000), o diretor Spike Lee faz uma abordagem contemporânea da cultura dos shows de menestrel.


Caro Sid Sheinberg
Quando você vai lançar meu filme, 'BRAZIL'?
Terry Gilliam

#2 Para entendermos por completo essa peculiar página, vale a pena contextualizá-la. Conforme anuncia a assinatura, seu autor é Terry Gilliam, consagrado como membro do Monty Python. Enquanto integrante do grupo de comédia, ele também co-dirigiu o filme Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado (1975) com Terry Jones. No começo de 1985, pois, Gilliam lançou seu filme Brazil na Europa. Não à toa, o filme é altamente inspirado por 1984, de George Orwell.

Quem já assistiu à obra, em cujo elenco encontramos Jonathan Pryce, Robert De Niro e até Michael Palin, tem ideia de que o final da película é no mínimo atípico. Somado ao fato de conter mais de 140 minutos de duração, o desfecho não agradou nada aos distribuidores norte-americanos da Universal, que
atrasaram o lançamento de Brazil. Sid Sheinberg, diretor da companhia, queria revisar o longa-metragem até que esse totalizasse 90 minutos e oferecesse um final mais positivo.

Sendo assim, Terry Gilliam, com seu trabalho já rodando a Europa e sem previsão de lançamento nos EUA – mais de um semestre havia se passado –, desafiou a Universal de duas maneiras. Primeiramente, questionou Sheinberg por meio da
página acima, um anúncio comprado na revista Variety. A resposta do ricaço, claro, não foi nada positiva: "se o filme é tão bom em sua forma atual, arranje outra pessoa para comprá-lo". Ele considerava a película totalmente desprovida de potencial comercial.

E então, para enfrentar os distribuidores na prática, Gilliam simplesmente exibiu o longa-metragem diretamente para a associação de críticos de Los Angeles, sem autorização alguma para tal. E o filme começou a ser premiado. Sem ter sido lançado. A Universal se rendeu diante do contexto bizarro, liberando uma edição de 132 minutos supervisionada por Gilliam. E o lançamento, aliás, de fato deu prejuízo de milhões nos Estados Unidos.

 
(O título Brazil remete à "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso. A música, regravada por Geoff Muldaur, conduz o longa-metragem em vários momentos. Sobre as relações entre esse Brazil e o nosso, ler esse texto aqui.)

#3 Você já ouviu falar em Thomas Austin? O inglês, um ávido caçador de coelhos na Inglaterra, foi impedido de manter seu hobby ao mudar-se para a Austrália, pois no país não havia população nativa do animal. A solução? Importar, em 1859, através de seu sobrinho, 24 coelhos europeus selvagens e lançá-los no mato. Segundo ele, “a introdução de uns poucos coelhos não poderia fazer nenhum mal, e poderia proporcionar um toque familiar, além de um local de caça”. Foi assim que ele contribuiu para o desenvolvimento de uma praga de coelhos que se alastra até hoje.

Por oferecer as condições ideais para uma explosão na população de coelhos, com invernos suaves, os animais puderam se reproduzir durante todo o ano. Uma década depois, dois milhões deles poderiam ser mortos ou pegos em armadilhas anualmente sem causar nenhum efeito notável em sua população. O efeito na ecologia australiana foi, e ainda é, devastador: desde a perda de diversas espécies de plantas até sérios problemas de erosão. Além disso, tornaram-se uma grande ameaça às plantações.

Para conter o problema, há, hoje, diversas medidas de controle: destruição de tocas (em que os coelhos são desmembrados ou enterrados vivos), explosão, fumigação de grandes fazendas, envenenamento e, é claro, caça. Isso não impede que alguns australianos sejam um pouco mais criativos, como é o caso
desse cara aqui.
 
[por Amanda Arruda]

#4 Londres é um dos destinos mais populares entre quem visita a Europa, e não à toa. A capital inglesa está repleta de atrações marcantes: por lá você pode visitar a London Bridge, o London Eye, a London Stone... Pois sim, existe uma Pedra de Londres. Imagine-se, leitor, caminhando pelo coração da cidade, mais precisamente pela Cannon Street, número 111. Você nota, sob uma vitrine de loja, por detrás de uma grade e um vidro de proteção, uma pedra. Sim, uma pedra calcária, o que sobrou de um monólito maior, que ficava originalmente do outro lado da rua.

 

Por trás deste gradil sem importância aparente é conservada a mítica pedra


Agora, se você quer saber a origem, função, forma original, ou qualquer informação precisa sobre esse marco, está sem sorte: não há registros históricos que respondam essas questões, e grande parte do que é sabido já sofreu a influência de séculos de lendas das mais variadas procedências. De objeto de veneração de rituais pagãos a ponto de referência para a medida de distâncias, até definidora de poder político — os ingleses sempre confiaram em espadas e pedras para definir seus líderes. (Talvez por isso, em uma rebelião do século 15, o revolucionário Jack Cade se declarou Lord de Londres ao golpear a poderosa rocha com sua arma.)



Há de conter importância, para ter sido conservado por mais de nove séculos de guerras, reformas, incêndios e chuva, muita chuva. O que se tem de certo é que o seu material não possui origem local: vem provavelmente de uma mina a 160 Km de distância, da época em que romanos dominaram a região. Seu primeiro registro escrito data dos anos 1100, e já nos anos 1600 sua existência intrigava os historiadores. Desde então, a pedra foi movida diversas vezes, para deixar de incomodar o trânsito e se adaptar à cada vez mais moderna Londres.
Hoje, ela é o que tem sido desde há algumas centenas de anos: uma atração turística e objeto de curiosidade para historiadores e transeuntes.

 

Ipsis litteris
(
Fonte)

– "Me disseram que quem sonha alto o tombo é grande. Só que se esqueceram de me perguntar se eu tenho medo de cair";
– "Pare de reclamar da vida e faça algo para mudar, mova-se, saia do canto, ficar parado é para os fracos, os fortes vão à luta";
– "Algumas pessoas amam o poder... outras, tem o poder de AMAR !!!!";
– "Queria viajar mas não tinha dinheiro, fumei um baseado e viajei o dia inteiro";
– "As vezes construimos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!";
– "Do que adianta me descrever se você vai acreditar no que os outros falam de mim";
– E, claro, "É estranho sentir saudade de algo o qual mal vivi ou evitava viver".

"Não quero fazer parte de um clube que me aceite como membro."

 
Groucho Marx, comediante americano, após ser convidado a participar de um clube da elite
de Beverly Hills — embora as versões variem segundo a fonte [Aliás,
Fonte].
Hipertexto de Kim Philby: "com tragédias familiares, várias esposas, e vários esposas somadas a tragédias ao londo da vida". A frase sequer fez sentido no texto, e O Editor esqueceu de editá-la. O Revisor esqueceu de revisá-la. Também faltou um acento em 'herói', nas linhas finais. (Valeu, Vitor De Lerbo!)
 
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