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A 21ª newsletter do RelevO: Pátio Belvedere, smearing, suposta insanidade e coisas que confundimos
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edição #21 – 6 de outubro de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella
BOM DIA, leitor da Enclave — a newsletter com asas.

***
 
– O Jornal RelevO lançou sua primeira antologia, compilando contos, traduções, poemas, crônicas e críticas frutificados em seus cinco anos de existência. A obra, criticada pelo jardineiro da Pitchfork por excesso de qualidade, pode ser adquirida em contato direto com a maçonaria do RelevO. Se preferir, basta mandar um email para jornalrelevo@gmail.com.
– Em breve, o RelevO de outubro! O de setembro está
por aqui, em algum lugar.
– Tenha uma ótima leitura, e lembre-se: cada vez que você recomenda a Enclave, seu amigo devolve um livro emprestado há anos.
#1Pátio Belvedere, nos museus do Vaticano, abriga algumas das esculturas mais importantes da história da arte ocidental. O Torso Belvedere, Apollo Belvedere e o grupo Laocoon são exemplos notáveis de obras da antiguidade que foras redescobertas durante a renascença, momento no qual os artistas estavam especialmente dispostos a beber da fonte greco-romana.
 

Comecemos pelo espetacular Laocoon: esse grupo mostra um pai e seus dois filhos sendo atacados por serpentes enviadas pelos deuses, em cena derivada de um episódio da Guerra de Troia. Redescoberta em 1506, a obra teve grande impacto na arte da época pelo seu dinamismo e tratamento intenso e dramático dos rostos do personagens em sofrimento, além da rendição perfeita da anatomia humana. Michelangelo foi um dos primeiros a fazer referência à escultura em seu trabalho: os escravos talhados para a tumba do papa Júlio II, a figura do crucificado Hamã e vários ignudi na Capela Sistina, são alguns exemplos. Laocoon também aparece na obra de Rafael, como o cego Homero no afresco Parnaso, nessa caricatura feita por Ticiano, nessa tela de El Greco, enfim, em muitos lugares. Várias cópias do grupo foram encomendadas desde o século 16 e hoje figuram em sítios como os museus Uffizi, em Florença, e o Louvre, em Paris; no jardim de Versalhes e na ilha de Rodes, para citar alguns.
 

O Torso Belvedere é um fragmento de nu masculino que impressiona pela robustez. A figura representava Ajax – ou Héracles. Ou Hércules, Polifemo ou Marsias, ninguém sabe ao certo – sentado sobre um couro de animal ponderando sobre seu suicídio (ok, essa é apenas uma de tantas teorias). A posição das pernas e os grandes traços musculosos foram grandes inspirações para – adivinha – Michelangelo, que deles se utilizou para montar boa parte das figuras do teto da Capela Sistina, incluindo São Bartolomeu, Jesus e os ignudi que emolduram as cenas principais. Pigalle, representante do Rococó francês, cita o torso em seu Mercurio.
 

Finalmente chegamos ao Apollo Belvedere, ou o Apollo Arqueiro. Com seus traços doces, contrapposto sutil e postura heroica, esse rapaz foi considerado a epítome da beleza ideal segundo os neoclacissistas. É interessante notar as diferenças entre ele e os dois outros exemplos acima citados. Apollo faz parte da escultura antiga clássica: mais sóbria, estática e "magra", enquanto os outros dois são esculturas helenísticas, algo como um barroco antigo, que valoriza o movimento e a instensidade dramática dos seus temas. Desde a sua redescoberta no final do século 15, foram muitos os que se inspiraram no Apollo: Albrecht Dürer o usou como modelo para seu Adão, Antonio Canova fez de seu Perseu e de seu Napoleão como Marte homenagens diretas à pose do arqueiro, e até a NASA prestou seu tributo, incluindo a estátua na insígnia da missão lunar Apollo 17.

#2 O curto documentário l'equip petit, de Roger Gómez e Dani Resines, feito na Catalunha (2011), é um grande amolecedor de corações. Nele, conhecemos uma equipe infantil de futebol caracterizada pela infeliz particularidade de perder sempre — por sempre, entenda-se sempre, com derrotas acachapantes e placares elásticos. Mais do que isso, o Margatánia FC, das proximidades de Barcelona, sequer sabe como é balançar as redes, terminando seu campeonato local com 271 gols sofridos. A postura amigável e absurdamente carismática das crianças, no entanto, reconhece a problemática com maturidade ímpar, o que confere graus especiais de carinho ao material, cujo primeiro objetivo consistia em simplesmente ser exibido aos pais. Cientes do inacabamento e otimistas quanto ao futuro, os pequenos de Margatania sonham em fazer gols e vencer partidas, ambição inegável no documentário. Não sabemos se algo mudou na pequena equipe desde 2011.

Em espanhol:
https://youtu.be/TvLV5Iy6YDk
Em inglês: https://youtu.be/76FEWcyFCwM

#3 Smear (do inglês: espalhar, lambuzar) é uma técnica tradicional em animação que procura reproduzir movimentos rápidos. Em filmagem, movimentos bruscos demais para as lentes aparecem como um borrão na tela. Nosso olhos não conseguem distinguir cada passo da ação, mas entendemos a ideia. Em animação, isso deve ser feito manualmente. Os desenhistas produzem quadro a quadro essas imagens de transição que, vistas separadamente, revelam cenas ora perturbadoras, ora cômicas. É uma dessas coisas que você com certeza já percebeu, mas nunca analisou com cuidado.
 

O tumblr animationsmears traz mais de SEISCENTAS páginas de imagens, gifs, informações e curiosidades sobre o assunto. Dá pra gastar um bom tempo.

Casa de Locos, Francisco de Goya


#4 O Experimento Rosenhan, de David Rosenhan, é certamente um dos mais curiosos estudos entre publicações científicas sérias. Isso porque o trabalho, divulgado em 1973 sob o título Sobre ser são em ambientes insanos, apresentou um método bastante direto de questionar a própria validade do diagnóstico psiquiátrico.

Para tanto, oito pessoas – Rosenhan incluso –, foram aceitas em 12 manicômios diferentes nos Estados Unidos após simularem alucinações auditivas de vozes que proferiam palavras vagas. Entre profissionais da área e gente nada relacionada, nenhum continha histórico de distúrbios mentais, e todos usaram pseudônimos. A instrução para o experimento era clara: uma vez dentro, todos se comportariam da maneira mais normal, saudável possível, desde cedo alegando não ouvir mais voz alguma. O diagnóstico caberia às instituições.

Essas instituições, demograficamente variadas, levaram de sete a 52 dias para liberar todos os pseudopacientes, gerando média de 19 dias de estada. Todos foram devolvidos à sociedade com o diagnóstico de esquizofrenia em remissão, fato utilizado para Rosenhan argumentar como doenças mentais são tratadas como irreversíveis e estigmatizantes. Nenhum dos infiltrados foi descoberto, ainda que tenha havido suspeitas (por parte de outros pacientes, e não de funcionários). O autor
não poupou críticas ao tratamento recebido pelos internados.


No ambiente do manicômio, segundo Rosenhan, é impossível distinguir o são do insano. Verdade ou não, nossa a relação do homem com a validação subjetiva certamente ficou um pouco mais exposta.

(
O artigo inteiro, em inglês.)


The Calling of Saint Anthony (1530), de Aertgen van Leyden, apresenta uma pequena, discreta peculiaridade bem embaixo de nossos respectivos narizes. Para observá-la, contudo, é necessário utilizar o zoom superpotente do Rijksmuseum, onde a obra está exposta, neste link. Se você não encontrar nada de estranho, pode conferir o elemento clicando aqui.


George Orwell e Orson Welles;
Caracteres e hectares;
Piñata e piña colada;
Cuscuz e hommus;
Ohio e Idaho;
Alexandre Garcia e Márcio Garcia;
Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel;
Willie Nelson e Liam Neeson;
Glória Pires e Glória Perez;
Glória Perez e Perez Hilton;
Perez Hilton e Paris Hilton;
Marvel e DC;
Granizo e Canisso (Raimundos);
Gola e argola;
Alecrim e arlequim;
Elvis Costello e Rufus Wainwright;
A$AP Rocky, A$AP Ferg, A$AP Mob e a coisa toda;
Roberto Medina e Bruno Medina;
Fernando Fernandes e Rodrigo Rodrigues;
Leslie Nielsen e Steve Martin;
Cláudia Raia e Cláudia Ohana;
Flávio Conceição e Marcos Assunção;
Maurício Gugelmin e Raul Boesel;
Gustavo Borges e Alexandre Borges;
Leo Lima e Lucas Lima e Lucas Leiva e Lucas Lucco.
 
[por Felipe Gollnick, com adições pelas quais ele não deve ser responsabilizado]

"O propósito real de um cavaleiro é lutar em nome de uma senhora."

Thomas Malory, escritor inglês em A Morte de Artur, de 1470.
[FONTE: Ian Chilvers, História Ilustrada da Arte,
2014, ed. Publifolha).
A princípio, livre de erros.
 
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