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A 27ª newsletter do RelevO: suicídio em massa, posando para foto e Marechal Rondon
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edição #27 – 15 de janeiro de 2016
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Baile de Zanella
BOM DIA e ótimo ano, leitor da Enclave — a newsletter que entrou em coma após a morte de David Bowie.

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– O RelevO de janeiro está disponível aqui.
– Créditos do gif abaixo para
Helen Green.

#1 Jonestown até poderia ser o nome da capital da Guiana (e ninguém contestaria se eu o dissesse. A capital chama-se Georgetown), mas trata-se de uma cidade fundada pelo americano Jim Jones, líder da seita religiosa Peoples Temple. Jones começou a pregar ainda nos Estados Unidos, oferecendo rituais de cura para atrair seguidores. Dentro de dois anos, conseguiu iniciar sua própria igreja. O dinheiro para abri-la veio de macacos importados oferecidos como animais de estimação (!), vendidos de porta em porta por ele mesmo.

Após abrir sua igreja em Indianápolis, em 1956, e mudar-se para a Califórnia dez anos depois, alterou o tom de religioso para político. Começou a se preocupar com ataques nucleares e a acreditar que o governo inteiro, especialmente a CIA e o FBI, estavam atrás dele. Decidiu, então, deslocar-se para a Guiana em 1974, levando consigo vários de seus seguidores, fundando Jonestown. Lá, revelou-se extremamente controlador — histórias sobre as condições na cidade chegaram a familiares dos integrantes nos Estados Unidos. Preocupados, eles optaram por pressionar o governo.

Em novembro de 1978, o deputado Leo Ryan decidiu visitá-los. Jones, paranoico, tinha certeza de que a visita significaria sua condenação, e influenciou seus seguidores – a essa altura, quase mil – a cometer suicídio. Os membros da comunidade beberam um suco de uva contendo cianeto de potássio e substâncias sedativas, resultando em 909 mortes, um terço desse número crianças. Jones, por fim, matou-se com um tiro na cabeça. Porque Coração das Trevas, perto do maior suicídio em massa da história moderna, é a narrativa do Bambi.
 

E agora você sabe o que são essas cores...


[por Amanda Arruda] 

Calma lá, essa imagem de estoque – exigimos a marca d'água – fará sentido em breve

#2 No século 15, com o desenvolvimento da Renascença, uma das maiores influências da antiguidade nas artes visuais foi o retorno do Naturalismo nas representações humanas. Nas estéticas prévias – o romanesco e o gótico – não havia a preocupação de criar espaço habitável e personagens realistas. A temática, afinal, era muito mais centrada num mundo celestial, não subordinado às leis da física.
 
Tomemos como exemplo a escultura arcaica grega. Nota-se a rigidez de sua pose. Os joelhos estão travados e os membros, paralelos. Não é uma posição que alguém conseguiria manter por muito tempo sem se sentir desconfortável. No gótico, por sua vez, tão pouca importância é dada a esse tratamento do corpo que normalmente a figura aparece completamente vestida, com poucas pistas dadas sobre o que está debaixo dos panos.
 
Vamos agora ao David de Donatello, de 1400-e-algo, o primeiro freestanding – não suportado por outra escultura – nu esculpido desde a antiguidade. O garoto está claramente confortável. De fato, parece que ele está posando para o artista. Além da maior precisão na execução dos músculos e da expressão facial, o elemento que mais contribui com a naturalidade da obra é sua posição em Contrapposto.  
 

Contrapposto, pois, é o ato de apoiar o peso do corpo em uma só perna, enquanto a outra descansa com o joelho levemente inclinado. Isso cria um desvio nos eixos do quadril e dos ombros, dando ao mesmo tempo estabilidade e liberdade de movimento à figura. É a pose que tomamos inconscientemente ao ficarmos parados em pé. Esse recurso era amplamente utilizado na escultura greco-romana, e por isso foi um dos símbolos da retomada da tradição antiga pelos renascentistas.

Convidamos o leitor a prestar atenção: o contrapposto está em todo lugar.
Vênus de Milo? Sim. David de Michelangelo? Também. Apollo Belvedere  – já explorado na Enclave #21? Claro. Catálogo de moda genérico? Sim. Foto em grupo de formatura? Provavelmente.

#3 (& #4!) Como está claro, Marechal Cândido Rondon foi um militar, mas um que se aplicou não na arte de fazer guerras, e sim na de evitá-las.

Nascido no interior do Mato Grosso, oriundo de família humilde, Rondon tinha traços indígenas dos dois lados da sua genealogia (das tribos Bororó, Terena e Guará), mas muito pequeno se tornou órfão, passando a viver com seu tio, de quem herdou o sobrenome Rondon. Mais adiante, alistou-se no exército e foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar na imponente Escola Militar da Praia Vermelha.

Já em fase de curso superior, Cândido Rondon teve aulas com Benjamin Constant, que o iniciou no positivismo e deu ao jovem militar “ideias republicanas”. A influência de Constant parece ter sido grande: Rondon participou ativamente na Proclamação da República; em 1898 entrou para a Igreja Positivista Brasileira (olha o Rondon aqui) e, acima de tudo, ao longo de toda a sua carreira, tencionou tratar de assuntos militares por um viés pacifista, como também o fazia Benjamin Constant (não o francês).

Mas a grande obra de Rondon há de ter sido a interiorização das comunicações no Brasil, isto porque foi responsável pela instalação de mais de cinco mil quilômetros de linhas telegráficas e estradas em todo o Brasil (aliás, existe o “Dia de Rondon”, ou “Dia das Comunicações”, comemorado no seu aniversário, cinco do cinco) – lembrando que, desde os Bandeirantes, pouco se havia feito para comunicar-se com as terras mais distantes do Rio de Janeiro.

Por onde passou, Rondon fez levantamentos cartográficos, topográficos, zoológicos, botânicos, linguísticos e etnográficos da região, além de levar consigo o cinegrafista Luiz Thomas Reis para filmar os trabalhos de engenharia, o desbravamento do sertão brasileiro e a interação pacífica com os indígenas e caboclos que pelo caminho cruzou, produzindo importantes registros como este, este ou este que revelam o respeito das missões de Rondon com os nativos das regiões desbravadas.

Mais do que aplicar sem falhas o seu glorioso lema “Morrer se preciso for. Matar nunca”, Marechal Rondon foi um dos primeiros humanistas do Brasil pelo tratamento e respeito que dispensou às comunidades nativas das localidades por que passou, levando médicos, educação e informação às comunidades sem ousar ferir a sua cultura. Preservaram-se a cultura indígena e o índio brasileiros por causa de Cândido Rondon e foi por obra sua que se criou o Dia do Índio, o Parque Nacional do Xingu e a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Anos mais tarde, Marechal Cândido Rondon foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Curiosidade: Albert Einstein redigiu uma carta ao comitê do Prêmio Nobel recomendando o brasileiro: “esse homem deveria receber o Nobel da Paz por seu trabalho de absorção das tribos indígenas no mundo civilizado, sem o uso de armas ou violência. Ele é um filantropo e um líder de primeira grandeza”.

Infelizmente, não foi ao Marechal Cândido Rondon concedido o Prêmio Nobel da Paz, e tampouco foi descoberta a carta de Einstein a tempo de que valesse para qualquer uma das duas indicações ao Prêmio que o Marechal recebeu. No entanto, no Brasil temos os municípios de Marechal Rondon; Rondon; Rondon do Pará (e quiçá outros de que não conseguimos notícia); o estado de Rondônia; dezenas de rios; montanhas; plantas e animais pioneiramente catalogados pelo militar; e inúmeras comunidades indígenas que estão preservadas por obra do legado de Rondon, sobre o qual, aliás, há esse documentário aqui.

Fica de boa, Tiradentes; aqui é MARECHAL RONDON!
 

[por Fernanda Benini]


– Marco Cassetti
– Anaïs Nin
– a comuna de
Caraglio
Charles-André Merda
– Suzy Rêgo

– Pau Gasol
Butão
Blaz Rola
– Phillip Cocu
– José Lins do Rego

– Nicolás Maduro
A dupla de ataque Mijatovic-Suker
– Tyson Gay
Peter Pau
– Salvatore Bocchetti
Joaquim Rolão Preto
"Quando você está morto, você não sabe que está morto. Só é doloroso e difícil para os outros. A mesma coisa acontece quando você é imbecil."

Ricky Gervais (FONTE)
Já nem lembramos.
 
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