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A 43ª newsletter do RelevO: herói improvável, Quadrado Sator e Pink Floyd
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edição #43 – 2 de fevereiro de 2016
editor Mateus Ribeirete     editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda     revisão Daniel Zanella
Bem-vindos à Enclave, a newsletter que se finge de morta e, quando você menos espera, continua se fingindo de morta.

O RelevO de fevereiro
se encontra aqui. Se você não viu o de janeiro, está aqui. Interessados em revisitar nosso conteúdo podem sempre se utilizar do acervo.
#1 The Division Bell, o décimo-quinto disco do Pink Floyd, é mundialmente apontado como um dos três melhores álbuns na discografia da banda (carece de fontes). O álbum tem músicas incríveis e um conceito tão difuso quanto interessante, a “comunicação”. As letras versam sobre a humanidade, suas relações e as falhas de entendimento entre as pessoas. Mas o famigerado Disco das Cabeça, além ser uma das obras mais subestimadas da história do rock, esconde um mistério maior: o Publius Enigma.
 

Qui discão da PORRA

O ano era 1994. A internet ainda engatinhava e oferecia várias plataformas de comunicação digital que, descobriríamos depois, morreriam na casca. Uma delas, a Usenet, teve uma boa popularidade por algum tempo – há inclusive quem afirme que foi o local onde surgiram ou se tornaram comuns coisas como emoticons e os acrônimos tipo LOL, mas isso é papo para outra Enclave. O que nos interessa aqui é que a Usenet funcionava basicamente como uma espécie de superfórum, onde vários grupos se formaram a partir de interesses comuns. Um deles, o Pink Floyd.

No dia 11 de junho desse ano, um post tão críptico quanto intrigante apareceu na comunidade Usenet do Pink Floyd. Assinado por um indivíduo denominado Publius, o conteúdo se tratava do seguinte:

 

Primeira postagem assinada por Publius

Na sequência, após receber algum ceticismo, Publius resolveu esclarecer um pouco melhor. Disse que The Division Bell não era como os discos que o antecederam porque, além das múltiplas interpretações que toda grande obra de arte carrega, continha um “propósito central e uma solução planejada”. Afirmou que o pessoal precisava se comunicar, ouvir, ler e absorver tudo que o álbum trazia, para começar a entender o que havia por trás da coisa toda. E fez referência a um “prêmio especial” a ser recebido pela alma elevada que chegasse ao resultado final.

Alguns se interessaram porque a mensagem parecia vir de um “cúmplice” da banda e do conceito, mas outros não deram a mínima e Publius seguia recebendo resistência. Em uma nova postagem, entretanto, o misterioso mensageiro deu data, local e horário para comprovar a sua veracidade – exatamente as coordenadas para um show do Pink Floyd. Os que conheciam esse papo e puderam acompanhar a performance ficaram um tanto surpresos, por causa disso aqui:



E I T A

 
Rapaz... E agora? Naquele palcão maravilhoso, em meio a milhares de detalhes cuidadosamente planejados, foram projetadas as palavras “Publius” e “Enigma”. Aí foi aquele fuzuê: já que o Publius era de fato alguém do staff da banda, isso significava, antes de tudo, que o quebra-cabeça existia. Se sucedeu, então, uma exaustiva caçada por pistas, tanto em letras quanto em detalhes da capa, artes promocionais e detalhes nos palcos da The Division Bell Tour. Há relatos até de gente cavando ao redor da Ely Cathedral, a catedral anglicana que aparece entre as duas estátuas da foto – aparentemente, nada foi encontrado. Na apresentação de 20 de outubro do mesmo ano, durante a execução de Another Brick in the Wall', a palavra “enigma” apareceu novamente. Outros materiais, posteriores, também trouxeram referências ao enigma. Como exemplo, esse detalhe do encarte na versão mini-disc do álbum A Momentary Lapse of Reason.

Publius publicou ainda outras várias mensagens, dando supostas pistas e respondendo a perguntas, mas sempre de forma vaga e solta. O último texto data de 2 de agosto de 1995 e, desde então, o “personagem” não deu mais sinal de vida.

 
O Pink Floyd, em si, nega envolvimento. Em 1995, David Gilmour afirmou, em entrevista a uma revista de guitarra, não saber nada sobre o Enigma. Durante um Q&A online em 2002, o discurso do guitarrista/vocalista/gênio mudou um pouco: chamou a empreitada de “Uma coisa boba da gravadora, que eles criaram para desafiar as pessoas”. Mas a afirmação mais interessante veio do baterista, Nick Mason, em um livro biográfico sobre o Pink Floyd. Ele corroborou a fala de Gilmour, sobre ser invenção da gravadora, mas terminou dizendo que “... o prêmio nunca foi dado. Até hoje, [o Enigma] continua sem resposta”. Essas declarações provam que o enigma não é uma farsa – se tem dedo da banda ou não, é outro papo.
 
A questão é: será que existe uma resposta para o Publius Enigma, ou a iniciativa foi abandonada antes de todas as pistas para a resolução serem dadas? Há quem diga que a ideia do quebra-cabeça é justamente não possuir um final: continuando as buscas, os participantes dessa “caça ao tesouro” vão seguir em contato e, por consequência, continuarão se comunicando. Pensa numa parada decepcionante.


Imagens reais de fã que chegou a essa opção de final para o Publius Enigma

 
Uma outra teoria doida crava que o mistério já foi solucionado. Segundo alguns, o “prêmio especial” é uma surpresa maior, para ser compartilhada por todos: um pessoal colocou o The Division Bell para tocar junto com o filme O Mundo Fantástico de Oz (a sequência ruim e não-oficial do clássico O Mágico de Oz) e jura que a relação é ainda mais assustadora do que no famoso “The Dark Side of the Rainbow. Segundo essas mentes fervilhantes, o Pink Floyd, motivado pela notoriedade que ganhou a sincronia acidental de anos antes, teria composto o álbum de 1994 de forma a – agora propositalmente – encaixar perfeitamente com a sequência.
 
Será? O único link que achamos para isso foi infelizmente removido pela Disney. Se você achar por aí, envia pra nós!
 

#2 O Quadrado Sator  é um quadrado-palíndromo com as palavras Sator Arepo Tenet Opera e Rotas. Essas palavras aparecem em qualquer orientação que você as leia. Da direita para a esquerda, de baixo para cima, repetirão-se  as mesmas cinco palavras aparentemente desconexas. Menções e exemplos do quadrado são encontradas desde a Antiguidade  nas escavações em Pompeia e na atual cidade britânica de Cirencester, antiga Corinium  e geralmente são relacionadas à presença do Cristianismo no local.


SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS

O significado do quadrado é bastante debatido. Sator vem de semeador; Arepo é considerado um nome próprio, já que é um Hapax Legomenon (uma palavra que aparece uma única vez em determinada língua); Tenet é do verbo 'ter'; Opera é 'obra' e Rotas é o plural de 'roda'. Mas como "O semeador Arepo tem obra de rodas" não parece ser uma tradução convincente (e tampouco é a versão ao contrário), estudiosos preferiram olhar mais simbolicamente para o artefato.

Pelo rearranjo das letras em volta do N central, é possível montar uma cruz que forma as palavras PATER NOSTER (pai nosso em latim), além de convenientemente isolar as letras A e O, que simbolizam o Alfa e o Ômega, o início e o fim que Jesus Cristo cita no livro do Apocalipse e que são tão presentes no simbolismo cristão.

Por isso, o quadrado Sator foi um importante símbolo para os primeiros cristãos, que se identificavam secretamente para outros cristãos ao deixar um exemplar em frente às suas casas. Com a Idade Média, houve uma disseminação desse ícone, que hoje pode ser encontrado em igrejas por toda a Europa ocidental indo até a Suécia, numa versão em runas.

#3 Entre as infinitas maluquices proporcionadas pelo esporte, especificamente no futebol, o gol de Jimmy Glass, em maio de 1999, figura entre as mais marcantes. Glass não era um grande atleta, tampouco viria a sê-lo. Aliás, também não ocupava o posto de titular, ídolo ou qualquer outra honra. Seu gol não garantiu título algum e seu clube não era nada expressivo. Muito pelo contrário: o arqueiro defendia as cores do Carlisle United, que lutava contra o rebaixamento da quarta divisão inglesa.

A queda para a quinta divisão significaria uma redução às ligas semiprofissionais. O Carlisle, desesperado na última rodada da competição, precisava derrotar o Plymouth Argyle para se manter no círculo profissional dos torneios ingleses, a Football League, onde já fardava havia 71 anos. Glass fazia apenas sua terceira aparição pelo Carlisle, isso porque um goleiro havia sido negociado e o outro havia se lesionado. A mágica de Jimmy Glass se deu a meros 10 segundos do fim, o único scenario de desespero que permite a goleiros a insanidade de almejar o gol adversário.

Em uma cobrança de escanteio, Glass aproveitou rebote do guarda-redes adversário para empurrar a bola na caixa por meio de uma finalização rasante.
Narradores, torcedores e quaisquer espectadores foram à loucura, e os pouco mais de 7 mil torcedores que aquilo testemunhavam no Brunton Park logo invadiram o gramado (foto), em atitude inquestionavelmente espontânea. Jimmy Glass, desprovido de qualquer grandeza em seu contexto, precisou de 10 segundos para protagonizar um dos episódios mais marcantes da história do futebol.

Na temporada seguinte, o Carlisle quase caiu novamente. Por sua vez, o improvável herói Jimmy Glass, que sequer permaneceu no clube, rodou entre várias equipes inexpressivas até se aposentar em 2001, com apenas 27 anos. Glass se tornou vendedor, e depois taxista. Também chegou a se viciar em apostas, mas, segundo ele, toda ansiedade negativa se foi graças a um casamento feliz, o qual lhe concedeu dois filhos. O ex-goleiro lançou uma autobiografia, cujo título, One hit wonder, não poderia ser mais apropriado. Nenhuma sequência de elementos ordinários, no entanto, colocaria e colocará em xeque aquele mísero fragmento de tempo em que Jimmy Glass se tornou eterno.

As chuteiras do fatídico jogo figuram no
National Football Museum, em Manchester.

1. Caernarfon
2. Llandudno
3. Aberystwyth
4. Tenby
5. Chytwneth
6. Cwmbran
7. Kirkstlota
8. Pontypridd
9. Machynlleth
10. Llanybydder
11. Zytytyrlwither
12. Twyll
13. Senghenydd
14. Ooijer Llattrmolst
15. Blaenau Ffestiniog
16. Laddr Gentswit
17. Ebbw Vale
18. Dolgellau
19. Vynl Wittorh
20. Yffltrappyl
21. Ynysddu
22. Ystradgynlais
23. Kllop 
24. Penmaenmawr
25. `PASd-ãs0a=s;d=asd;as-d;a-sd;a=s-d;slsl[s[s]a]a ãa~



 
Cidades galesas: 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 10, 13, 15, 17, 18, 21, 22 e 24.
Erros de digitação: 5, 7, 11, 12, 14, 16, 19, 20, 23 e 25.
Spade sentou-se na cadeira verde. O gordo começou a encher dois copos com a garrafa e o sifão. O rapaz havia sumido. As portas, situadas em três das paredes da sala, estavam fechadas. A quarta parede, atrás de Spade, era vazada por duas janelas que davam para a rua Geary.

— Começamos bem, senhor — ronronou o gordo, virando-se com um copo na mão, que ofereceu para Spade. — Não confio em um homem que não bebe à vontade. Se ele precisa tomar cuidado para não beber demais, é porque não se pode confiar nele quando bebe.

Spade segurou o copo e, sorrindo, fez o início de um cumprimento com a cabeça, por cima da sua bebida.

 

Dashiell HammettO Falcão Maltês (Companhia das Letras, 2001, p. 142).
O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído.
 
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