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A quinta newsletter do RelevO: Jogadores de futebol, músicos fodidos, Walt Disney e Erro 404
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edição #5 – 30 de março de 2015
editor Mateus Ribeirete editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda revisão Daniel Zanella
Aqui chegamos à quinta edição da Enclave, a newsletter responsável por alguns minutos aproveitáveis de sua segunda-feira.

Só isso mesmo.

Boa leitura!

#1 Trafegando pelas ruelas do que nomeamos internet, tenha percebido ou não, você certamente já caiu na página errada — e a página errada lhe informou o Erro 404 (normalmente em forma de "File not found" ou "Object not found"). Uma história interessante permeia o número 404: no quarto andar de um dos edifícios do CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear que a Web teve como berço, havia de fato uma sala 404. Importantíssimo, o escritório em questão abrigava a base de dados da World Wide Web, que naturalmente passava a ser cada vez mais utilizada conforme os arquivos ali postos eram progressivamente procurados. Muitas dessas buscas por arquivos, por exemplo, eram requeridas com erros de digitação, e a resposta do Erro 404 virtual surgiu como uma bela transposição daquele espaço físico.

Eeeentretanto, outras fontes
negam a existência de uma sala 404, o que tornaria a história menos interessante.

[Obrigado pela dica, Gabriel Mussiat!]


#2 Zidane: um retrato do século XXI (2006) é um documentário diferente. Durante uma partida pelo Real Madrid em 23 de abril de 2005, 17 câmeras foram apontadas para Zinédine Zidane, seguindo todos os seus movimentos durante os 90 minutos de peleja. Desde o pontapé inicial, vigiamos o francês enquanto este se posiciona para receber uma bola, cobra um lateral, cai no chão, assoa o nariz, e, enfim, faz o seu trabalho como jogador de futebol.

Esse ambiente orwelliano nos aproxima pouco a pouco do craque, revelando trejeitos e manias que passam desapercebidos num dia normal. Além disso, em diversos momentos aparecem legendas com trechos de entrevistas nas quais Zizou fala sobre a experiência de estar em campo e sobre suas memórias. Por um momento é fácil esquecer de que se trata de um dos maiores nomes do futebol mundial jogando num dos maiores palcos do esporte, e não de um garoto e seus colegas no campinho da escola. Os sons do campo são intercalados com uma bela trilha sonora dos escoceses do Mogwai, o que cria uma atmosfera ora de imersão, ora de simples contemplação das imagens.

 

No intervalo, como que para contextualizar o espectador, são mostradas notícias do dia, como a destruição causada por enchentes na Sérvia, e sapos explodindo espontaneamente na Alemanha. Um contraste interessante com a pompa do espetáculo que acontecia em Madrid. No meio disso tudo, o futebol parece ficar em segundo plano, sendo apenas um meio pelo qual a história se desenvolve. Claro, é quase impossivel não se perceber torcendo por um gol ou uma jogada de efeito do maestro francês, mas no fim é como se um gol fosse tão relevante para a narrativa quanto uma bola perdida ou uma conversa amigável com um companheiro de equipe.
 

  • Para ver o filme em impressionantes 240p – melhor versão em inglês disponivel no YouTube –, siga este link!
  • Para outro documentário no mesmo modelo, sugerimos Soccer As Never Before (1971), que tem o norte-irlandês George Best como protagonista.

#3 De 1937, Branca de Neve e os Sete Anões foi o primeiro longa-metragem de animação. Desde o seu lançamento, o filme teve uma ótima aceitação, chegando a quebrar o recorde de bilheteria para um filme com som na época.

Chegado o Oscar, a produção – sendo tão diferente das demais da época – não cabia em praticamente nenhuma categoria e sua única indicação foi no quesito melhor trilha sonora. Para demonstrar o reconhecimento da crítica, então, foi-lhe atribuída uma premiação honorária, como uma "inovação significante que encantou milhões e foi pioneira num grande novo campo no entretenimento". No entanto, o mais curioso veio na forma com que o prêmio foi apresentado: a atriz-mirim Shirley Temple (
inspiração para a ex-mini-apresentadora Maísa) se encarregou de entregar em mãos ao próprio Walt Disney uma estatueta em tamanho normal, junto com mais sete pequenos modelos, clara alusão aos anões do filme. Uma homenagem mais que especial
.

Bônus: Branca de Neve foi a primeira personagem feminina a ter uma estrela na Calçada da Fama; feito impressionante para uma dama de 14 anos. (É, a Branca de Neve tem 14 anos!)


#4 Jackson C. Frank foi um músico fodid*. Tanto no bom sentido – seu único disco, homônimo (1965), é brilhante de cabo a rabo –, quanto o fodid* correspondendo a um completo azarado. Aos onze anos, Frank passou por um trauma que o acompanharia durante a vida inteira: durante uma aula de música na escola, uma caldeira de calefação explodiu, gerando um incêndio que mataria 18 de seus colegas e queimaria boa parte de seu corpo, cravando cicatrizes visíveis do rosto às mãos. Reembolsado em 110 mil dólares por conta do desastre, Jackson C. Frank não fazia questão nenhuma de segurar dinheiro. Terrivelmente introspectivo, só conseguiu gravar seu álbum quando cantava escondido do produtor Paul Simon (ele mesmo), com quem dividia apartamento na Inglaterra. O álbum não fez sucesso.

Casado, teve dois filhos. Um deles morreu de fibrose cística ainda na infância. Foi diagnosticado com esquizofrenia, o que negava. Perdeu todo o dinheiro e se tornou mendigo em Nova York, onde, graças a um problema na tireoide, também ganhou peso subitamente. No que soa como o roteiro de uma comédia bastante forçada e maldosa, Jackson C. Frank sentava em um banco de Nova York quando uma criança simplesmente o atingiu no olho com uma pistola de ar comprimido. Perdeu a visão de um dos olhos.

Com mais de 120 quilos, foi
redescoberto por um fã local em 1990. Tinha apenas um violão tenebroso e um par de óculos quebrados. Jim Abbott, o fã em questão, dispôs-se a ajudar Frank no alinhamento de sua vida, e então o músico, ou ex-músico, decidiu voltar a Woodstock, onde havia conseguido se estabelecer décadas antes. Ele ainda gravaria algumas demos (com a voz completamente destroçada), liberadas no lançamento da edição especial de seu álbum.

Jackson enfim morreu aos 56 anos, em 3 de março de 1999, um dia depois de seu aniversário.
Seu disco, uma fraqueza eterna Do Editor, pode ser escutado neste link.

#5 Falando em músicos descobertos e redescobertos: Sixto Rodriguez. O documentário Searching for Sugar Man (2012) acompanha dois sul-africanos tentando desvendar o mistério desse cara, cujo álbum Cold Fact, de 1970, embalou a juventude na época do apartheid com músicas politizadas e de protesto. Na África do Sul, ninguém sabia nada sobre o paradeiro dele – acreditava-se, inclusive, que tinha terminado sua carreira precocemente ateando fogo a si próprio no palco. Eis que os dois, na busca pelo Sugar Man, descobrem que a história era um pouco diferente (... e o resultado vai te emocionar!!!).

Teve também quem disse que o filme todo
era meio fantasioso e privilegiava apenas uma parte da narrativa deliberadamente. Mas o filme ganhou o Oscar de melhor documentário em 2013 e as músicas de Rodriguez são maravilhosas (seria ele... melhor que Bob Dylan??), então você pode deixar de lado a teoria da conspiração e só aproveitar a história (e a obra musical) desse músico latino-americano sem dinheiro no bolso nem parentes importantes.


– Antoine Sibierski
– Eugenio Corini
– José Quintanilla
– Olivier Giroud
– Jörg Heinrich
– Isaac Brizuela
– Demetrio Albertini
– Frank Leboeuf [
esse virou ator mesmo]
– John Terry
– Matthew Le Tissier
– Toshihiro Aoyama
– Gianluca Zambrotta
– Krasimir Balakov
– Stéphane Guivarc'h
– Oxlade-Chamberlain
– Giorgio Chiellini
– Kléber Pereira


 


Depois de Altamira, tudo é decadência.”

 

Célebre citação de Pablo Picasso, após ver as pinturas rupestres de 15 mil anos de idade nas cavernas de Altamira, Espanha. A frase, porém, provavelmente nunca foi dita.

 

No hipertexto sobre o filme Matrix, escrevemos "dez mil" em uma das referências aos dez milhões de dólares. Dinheiro de fato não é nosso forte.
 
 
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