Copy
A 22ª newsletter do RelevO: O Atalante, Poe, Sheffield Wednesday e reconstrução facial
Veja esse email no browser
edição #22 – 21 de outubro de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella
BOM DIA, leitor da Enclave — a newsletter que se posiciona oficialmente contra quem não gosta de tomate.

***
 
– Ainda temos exemplares da antologia de cinco anos do Jornal RelevO. Para adquirir, basta entrar em contato com nosso departamento de comunicação, o qual consiste no próprio editor. Se preferir, é só mandar um email para jornalrelevo@gmail.com. Custa R$25.
– O RelevO de outubro, com novo projeto gráfico – belíssimo! – pode ser visto
neste link.
'Tributo ao leitor desconhecido', texto de Ben-Hur Demeneck, novo ombudsman do jornal literário mais boa pinta do Brasil, no Observatório da Imprensa.
– Tenha uma ótima leitura, e lembre-se: cada vez que você recomenda a Enclave, nenhum barulhento senta em suas proximidades no cinema.

#1 O Atalante (não confundir com o Atalanta) é um filme francês de 1934 cujo enredo acompanha Jean, um marinheiro que passa seus dias em seu pequeno barco (o Atalante), e Juliette, moça de um pacato vilarejo. A cena inicial mostra os noivos saindo diretamente de seu casamento em direção à humilde embarcação. Lá os esperam Père Jules, marinheiro à moda antiga, com sua fala enrolada, histórias e objetos de toda a parte do mundo, além de, claro, tatuagens de marinheiro, e "o garoto" – que permanece sem nome durante o filme – jovem assistente da embarcação. É lá onde passarão a lua de mel e boa parte de suas novas vidas.

As situações que seguem são um retrato da intimidade recém-adquirida, do conflito de pretensões e da complicada tarefa de encaixar a personalidade de cada um numa relação. Com humor leve e personagens estupidamente cativantes, esse é um exemplo do cinema que procurava abordar todos os membros da sociedade, das famílias tradicionais às ditas pessoas pequenas –
como é o caso de O Atalante – para fazer um estudo do que há de humano a unir cada um de nós (e também a separar). Essa tendência francesa no entreguerras é chamada de Realismo Poético, tendo em Jean Renoir seu maior expoente, com A Grande Ilusão seu chef d'œuvre.
 
Jean e Juliette se encontram em seus delírios
 
Além do roteiro e dos personagens, o filme chama a atenção por suas inovações estéticas e técnicas. É impressionante pensar que essa cena foi produzida no começo dos anos 30. A câmera embaixo d'água, a sobreposição de imagens e a dança em câmera lenta são incrivelmente poéticos. Fica clara a influência que o revolucionário diretor Jean Vigo teve posteriormente na Nouvelle Vague. Esse foi, inclusive, o único longa dirigido por Vigo, que já havia produzido o catártico média-metragem Zero de Conduta, e morreu de tuberculose meses após finalizar o projeto, à tenra idade de 29 anos.

O Atalante é até hoje considerado um agradável ponto fora da curva na produção cinematográfica do século XX, e figura constantemente nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Seu legado e influência tornam tanto mais triste a morte prematura de seu idealizador: Vigo permanece como uma das mais lamentáveis perdas de potencial na história do cinema.

#2 Argila e massa de modelar eram os principais materiais utilizados por Anna Coleman Ladd na tentativa de restaurar rostos desfigurados na Primeira Guerra Mundial. A escultora, nascida nos Estados Unidos e educada na Europa, usava seu estúdio em Paris para reconstruir as faces de quem havia sido injuriado em combate. A partir dos moldes de argila e massa, Ladd criava uma prótese de cobre galvanizado e a pintava conforme a pele do atendido.

Antes da guerra, Anna Coleman já havia se envolvido com fotografia, dramaturgia e literatura, além das próprias peças que esculpia – geralmente aplicadas na decoração de fontes. O casamento com Maynard Ladd, médico da Cruz Vermelha, ajudou a conectar seu enorme talento com uma causa interessantíssima. Em Paris, cada máscara levava cerca de um mês para ficar pronta, tendo vida útil de alguns anos. Estima-se que Ladd tenha produzido mais de 185 peças.

Todas as informações foram extraídas
desta matéria na Smithsonian, ainda mais recomendada pela galeria de fotos. Interessados também podem assistir a este curto vídeo do estúdio, que oferece uma dimensão maior do trabalho de Ladd.

 
[obrigado, André Delavigne!]

#3 Edgar Allan Poe (1809-1849) é um dos autores do século 19 mais presentes na cultura pop contemporânea. Além de pai da literatura muito dark com seus contos de terror, destaca-se na curta biografia de Poe – ele morreu aos 40 anos de uma morte ainda pouco explicada – sua atuação como crítico e editor de revistas especializadas em literatura (ainda que não poupasse o esculacho, Poe costumava acertar sempre, falando muito bem de autores como Hawthorne e Dickens).

Provavelmente, seu ofício como um
homem das comunicações o levou a estar sempre muito bem atualizado, e pode ser esta a razão por trás de diversos trabalhos terem sido baseados em fatos reais. Nesse artigo, além da biografia absurda de Poe (ele inaugurou a literatura-que-fala-de-detetives antes de a palavra "detetive" surgir na língua inglesa, contribuindo mesmo para o surgimento do serviço de inteligência dentro da polícia), há 13 histórias reais por trás de contos do escritor americano. The Fall of the House of Usher (1839), por exemplo, é baseado nos gêmeos James Campbell e Agnes Pye Usher, filhos de um colega da mãe de Poe, que diz-se terem ficado loucos.

Outro exemplo é o seu primeiro conto de terror, Berenice (1835), sobre um marido obcecado pelos dentes de sua esposa falecida que abre sua sepultura a fim de recuperá-los. Essa história, acredita-se, teria sido inspirada por uma notícia de jornal de Baltimore em 1833 que dava conta de ladrões estarem roubando os dentes de cadáveres para usá-los em dentaduras. O melhor deles, no entanto, é o que motivou o conto The Premature Burial (1844), que fala do medo de ser enterrado vivo e atende a uma fobia muito comum no século 19 – época que deu origem a organizações como a Sociedade para Prevenção de Pessoas sendo enterradas vivas em 1896 (bastante autoexplicativo, né?).

 

[por Marceli Mengarda]


#4 O Sheffield Wednesday é um time de futebol um tanto curioso. Chama-se, afinal, Sheffield Wednesday, isto é, Sheffield Quarta-Feira. Hoje na segunda divisão inglesa, as corujas – apelido da equipe, graças ao simpático escudo –, militaram por muito tempo no críquete, aquele esporte que rende algumas piadas ao longo do Guia do Mochileiro das Galáxias. O nome Quarta-Feira responde simplesmente pelo dia de folga dos seis comerciantes que fundaram o Wednesday Cricket Club, em 1820, embrião do clube de futebol.

Em 1868, a agremiação já tinha um time de balípodo; em 1882, os dois departamentos se separaram. O clube de críquete, que na ilustração acima atuava no Darnall, deixou de existir em 1925. Já o Sheffield Wednesday ainda pratica suas pelejas no Estádio Hillsborough, palco de uma das
maiores tragédias da história do futebol. Em assunto parcialmente relacionado, para também lembrar de coisas boas, vale citar que a cidade de Sheffield já rendeu as bandas Cabaret Voltaire e Pulp, além do Richard Hawley.

1. Somewhere in Time
2. The Final Frontier
3. The Rescue
4. Nights in Rodanthe
5. A Matter of Life and Death
6. The Last Song
7. A Walk To Remember
8. The Book of Souls
9. The Longest Ride
10. Piece of Mind
11. Fear of the Dark


 
GABARITO
1, 2, 5, 8, 10, 11 - IM
3, 4, 6, 7, 9 - NS

"À medida que as pessoas integram a política à vida cotidiana, torna-se mais difícil para elas se comunicarem com familiares e vizinhos, com outros na escola, na igreja e no local de trabalho. Fiquei desanimado, durante a eleição, com a reação de uma amiga quando dei a entender que tinha amigos republicanos. Ela me olhou horrorizada e disse: 'suponho que os nazistas tinham amigos também, mas eu não ia querer me associar com nenhum deles.'. (...) À medida que a 'política do ataque' evolui no nível popular, ou entramos em desacordo com as pessoas à nossa volta, difamando-as por suas escolhas políticas, ou nos recusamos a compartilhar nossas visões políticas, com receio de, ao expressá-las, prejudicarmos relações que nos são valiosas."

Henry Jenkins, nome forte no estudo de mídias contemporâneas, 2006.
[FONTE: Henry Jenkins, Cultura da Convergência,
2009, ed. Aleph).
01001110 01000001 01000100 01000001, ou 'nada' em binário.
 
Enclave é a newsletter semanal do Jornal RelevO. Se você recebeu esse email, é
porque aderiu ao nosso mailing ou está em nossa lista de contatos (aí tomamos essa liberdade).

Se não quiser mais receber nossos emails, você pode remover sua assinatura clicando aqui 
ou alterar suas preferências nesse link. Mas prometemos não trazer nenhum textão do Facebook
para a sua lista de emails. Você pode ler todo o arquivo do jornal aqui.


IssuuFacebookTwitter