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A 26ª newsletter do RelevO: Panettone, MacGuffin de Hitchcock e trocas atípicas
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edição #26 – 16 de dezembro de 2015
editor Mateus Ribeirete  editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda   revisão Daniel Zanella
BOM DIA, leitor da Enclave — a única newsletter com itálico em negrito e negrito também em negrito. Esta, aliás, é a penúltima (ou última?) edição do ano. O primeiro de muitos. Ou poucos. Provavelmente poucos, se formos bem realistas com o histórico de empreitadas dos envolvidos. Será um milagre se chegarmos no ano três. Vai ter Enclave em janeiro?

***
 
– O RelevO de dezembro está disponível aqui. E um site que aponta para seu cursor, onde quer que você o deixe, está disponível aqui.
– Se você recomenda a Enclave, nós te cobrimos quando você passa frio; nós trazemos ventilador quando você transpira. Arrumamos a mesa e engraxamos o sapato. Se você assina o RelevO – ainda custa apenas R$50 por ano! –, nós fazemos tudo isso novamente, mas com sorriso no rosto.

Esse não é um texto patrocinado pela Bauducco, mas adoraríamos que o fosse. Se você mantém qualquer coisa que traz dinheiro, fale com a Enclave: nós vamos puxar seu saco. 

#1 Se já é quase Natal, falemos do Panettone. Em uma noite fria do século 15, Ludovico il Moro, duque de Milão, ofertou um banquete de natal para toda a realeza da região. Porém seu chef responsável exclusivamente pela sobremesa estava tendo um caso com a esposa de um dos convidados nos corredores escondidos do castelo enquanto a sobremesa que preparou queimava no forno. O jovem assistente de cozinha Toni então utilizou os poucos ingredientes que sobraram como açúcar, manteiga, cascas de laranja e passas para misturar à massa que ele havia preparado para levar pra casa e que já descansava havia três dias.

Sem opções, o chef teve que aceitar a sugestão do esforçado garoto e levou ao forno porções arredondadas da mistura para enfim servir a sobremesa do banquete. Temente, o chef logo se retirou do salão após apresentar a receita, mas a recepção foi um sucesso entre a realeza
— o duque teve de chamá-lo novamente para agradecer publicamente. O chef, constrangido com os aplausos, confessou o verdadeiro autor da receita e a chamou de pane di Toni (pt: pão do Toni), posteriormente alterado para panettone.
 
GOL DI TONI! Prossigamos...

A forma do panettone como conhecemos hoje, no entanto, data apenas da década de 1920, quando imigrantes russos de Milão encomendaram 200 unidades de Kulich (pão tradicional consumido na Páscoa pelos ortodoxos cristãos) a Angelo Motta, fundador da empresa alimentícia Motta. Eles serviram de inspiração para Motta acrescentar nata e moldar os panettones em papel palha para que finalmente se transformassem nestes cogumelos de forno.

Mas se você é um daqueles céticos irredutíveis que desconfia até do próprio parto, certamente não se convenceu com essa historinha pra italiano dormir. Nesse caso, sua ceia de natal terá o pandoro (pt: pão de ouro), esse sim com “certidão de nascimento”. No dia 14 de outubro de 1894 em Verona, Domenico Melegatti patenteou a receita, a forma e claro, o nome. Melegatti se inspirou no Pão de Vienna para aprimorar a receita do nadalin, essa espécie de colomba pascal em forma de estrela que foi concebido durante o século 13 para comemoração do primeiro natal em que a família Scala governou Verona. Para obter a forma desejada, Melegatti modificou a receita, aumentando a quantidade de ovos, nata e fermento e retirando todos os ingredientes que impediam a massa de crescer, como cobertura, passas e pinhãoO nome teve como base o costume de cobrir pães com folhas de ouro, esses servidos em banquetes da realeza.
 

[por Gabriel Mussiat]

#2 MacGuffin, MacGuffin, MacGuffin. Eis um termo utilizado a rodo ao se construir uma narrativa, principalmente cinematográfica. Sua maior característica é não ter grandes características a não ser a possibilidade de levar o enredo adiante. Costuma ser um objeto, e um objeto totalmente substituível, que logo perde importância na trama. O termo foi popularizado por Alfred Hitchcock, que se valeu do MacGuffin diversas vezes.

Em
Psicose, por exemplo, o enredo avança por conta de um furto que permite a personagem Marion fugir. O dinheiro em si logo abandona qualquer relevância, e assim o filme se move. A quantia poderia ser um cheque, cédulas, barras de ouro; ao invés de dinheiro, poderíamos ver um amuleto, uma safira, uma declaração importante. Se ampliarmos a definição, é possível atribuir importância ao MacGuffin. Isto é, ao contrário de um objeto substituível, sem efeito algum na narrativa além do próprio efeito na narrativa, teríamos também elementos poderosos, que interferem na trama. Como o anel de Tolkien.

Nas palavras –
e na voz – do próprio Hitchcock, um MacGuffin é comumente encontrado em filmes de espiões. "É a coisa de que os espiões estão atrás". Elaborando anedoticamente, ele o exemplifica com o cenário de dois homens em um trem que se dirige à Escócia. 

— O que é esse pacote sobre sua cabeça?
— É um MacGuffin.
— E o que é um MacGuffin?
— É um aparato para caçar leões nas Terras Altas escocesas.
— Mas não há leões nas Terras Altas escocesas.
— 
Então não há MacGuffin.

Muito além do diretor inglês, que, por sinal, atribuiu a seu colega roteirista Angus MacPhail o nome e o aperfeiçoamento do MacGuffin, a ideia era similarmente utilizada nos filmes mudos com a atriz Pearl White, no início do século passado. Neles, os personagens costumavam perseguir algum ornamento, definido por White como "weenie". O termo ainda retoma o mito grego de Jasão e os Argonautas, que navegaram em uma nau em busca do velo de ouro, a lã dourada de Crisómalo, um carneiro alado. A árdua perseguição ao velo é um baita MacGuffin, cuja origem cabe provavelmente ao poeta Simônides de Ceos.

#3 Sobre oportunidades e como aproveitá-las. Chris Kluwe era um jogador de futebol americano na posição menos (ou uma das menos) prestigiosa do esporte, a de punter. O punter entra quando a campanha de ataque já falhou e o time deve devolver a posse de bola ao adversário com um chute como este, o qual há de ser o mais longo possível. É, normalmente, a hora em que os telespectadores aproveitam para ir ao banheiro ou pegar uma cerveja na geladeira. Kluwe fez boa carreira no Minnesota Vikings e era um dos jogadores mais queridos pelos torcedores. Ativista de direitos homossexuais e agnóstico, ele também é um exímio jogador de World of Warcraft (o twitter do menino é @ChrisWarcraft, inclusive) e baixista – claro – da banda Tripping Icarus. Um atleta incomum, para se dizer o mínimo. Outro fato importante: usava a camisa número 5.
 

Chris Kluwe momentos após um punt
 
Em 2011, os Vikings contrataram o veterano quarterback Donovan McNabb. Ele já havia sido um grande jogador: capitão e cérebro do ataque, levou o Philadelphia Eagles para o Super Bowl em 2004 e foi eleito para a seleção da temporada em seis oportunidades, mas estava (bem) longe de sua melhor forma ao chegar em Minnesota. McNabb também usava a camisa 5 – recentemente aposentada na Philadelphia – e tudo indicava que Chris Kluwe a cederia ao novo colega de time, um costume comum, dado que Donovan jogava em uma posição mais importante. 

Geralmente, o jogador que deseja o número ocupado paga uma quantia em dinheiro pela camisa e fica tudo certo, mas claro que esse não seria o caso do punter esquisitão. As condições para a troca foram: McNabb teria que doar 5 mil dólares para caridade, mencionar a banda Tripping Icarus cinco vezes durante suas entrevistas e comprar um sorvete para Kluwe, que passaria a usar o número 4. Donovan pagou o dinheiro à caridade, mas citou a banda apenas três vezes, e só foi pagar o tal sorvete cinco anos depois, segundo o próprio Kluwe, em um tópico no Reddit – sério, que cara legal.
 
Chris Kluwe em ação com a Tripping Icarus
 
A transferência acabou falhando miseravelmente. Antes do final da temporada, McNabb já havia sido cortado do elenco. No ano seguinte, Kluwe voltou a jogar com o número 5.
Retrospectiva. Na primeira, primeiríssima Enclave, nós mencionamos o Triângulo de Sierpinski, mas não sabíamos que gifs funcionavam em nossa formatação e, enfim, isso tirou boa parte da graça. Eis, portanto, essa belezinha de abismo matemático:
 
 
1. Half Shell
2. Busenitz
3. Hugo Drax
4. KB 8 II
5. Oddjob
6. Elektra King
7. Abdul-Jabbar
8. Le Chiffre
9. Gazelle
10. Nastase
11. No
12. Mr. Big
13. Nizza 
14. Mark Gonzales
15. Hector Gonzales
16. Milton Krest
17. Rod Laver
18. Jack Spang
19. Blofeld

20. Achill


 
Adidas: 1, 2, 4, 7, 9, 10, 13, 14, 17, 20.
James Bond: 3, 5, 8, 11, 12, 15, 16, 19.
"Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
"

Rubem Braga, em Ai de Ti, Copacabana1960.
Nada. Mas o Editor tem enviado mensagens de texto com a vírgula separada por dois espaços" , como nesse caso aqui , " para pouco a pouco levar os receptores à loucura.
 
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