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A oitava newsletter do RelevO: BUZLUDZHA, Conan Doyle e A Paixão de Joana D'Arc
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edição #8 – 21 de abril de 2015
editor Mateus Ribeirete editor-assistente Lucas Leite
projeto gráfico Marceli Mengarda revisão Daniel Zanella
Pela primeira (e provavelmente única) vez, a Enclave sai em uma terça-feira, o pior dia da semana. Argh, terças-feiras. Terrível.
Uma boa leitura e uma ótima terça-feira, esse dia hediondo.

#1 O filme A Paixão de Joana D'Arc (1928)como você pode imaginar – conta a história do julgamento e condenação pela inquisição inglesa da francesa, sob acusação de heresia. Usando os registros originais do processo, o diretor Carl Theodor Dreyer recria os últimos momentos da vida da jovem que ouvia vozes e inspirou seu exército a numerosas vitórias na Guerra dos Cem Anos com uma crueza perturbadora. Primeiro porque as falas seguem os documentos do tribunal, o que confere um tom hiper-realista à composição, mas sobretudo pelos elementos cênicos e estéticos: reducionista, o cineasta dinamarquês se livra de diversas convenções e se limita ao essencial para contar a história. Seus close-ups são extremos, e seus ângulos, vertiginosos; o cenário e figurino são os mais simples quanto possível e os atores não usam maquiagem, algo inédito no cinema mudo.


Falconetti como Joana D'Arc
 

A isso, soma-se a performance impecável – considerada uma das mais importantes e icônicas da história do cinema – de Renée Jeanne Falconetti em seu primeiro e único papel nas películas. A atuação intensa foi resultado de muito escrutínio do diretor, que regravava cenas numerosas vezes para conseguir exatamente as expressões que procurava na atriz. A expressividade de Falconetti é sinergicamente amplificada pelo enquadramento fechado e a mise-en-scène minimalista.
 

A influência de Dreyer no cinema pode ser vista até hoje em diversos cantos da sétima arte, mas quem mais diretamente bebeu de sua fonte foi o movimento Dogma 95 e Lars Von Trier. Fã confesso, Von Trier é adepto desse estilo autolimitador, visto pelas numerosas regras autoimpostas em seus filmes – notadamente em Dogville (2003), que, sem cenário, desenvolve muitos dos temas explorados primeiramente pelo dinamarquês.

#2 Conhecido por criar Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle acumula fatos curiosos para mais de uma vida. (Por sinal, "Doyle" é seu único sobrenome, sendo Conan apenas um nome do meio). Além de ter se envolvido com a popularização do ski e com a crença na existência de fadas – dois subtópicos que certamente exploraremos aqui, em outra edição –, Sir Arthur também influenciou diretamente duas absolvições criminais de seu tempo.

Em uma delas, o advogado
George Edalji foi condenado à prisão por supostamente mutilar animais – cavalos, especificamente. Cartas anônimas enviadas à polícia foram atribuídas a Edalji, que, contando com o empurrãozinho de preconceito alheio em relação à sua origem indiana, não teve escapatória quando um pônei foi encontrado em más condições no vilarejo de Great Wyrley, onde morava. Perseguido desde a infância por cartas anônimas de ódio, não tardou para que Edalji conseguisse um mandato de sete anos de prisão, isso em 1904.

Houve, no entanto, uma campanha de apoio à absolvição de Edalji, sendo Conan Doyle um de seus maiores porta-vozes. O escritor chegou a visitar a cena do crime e estudar todos os depoimentos relacionados ao caso, emulando sua criação mais famosa. George Edalji, segundo Conan Doyle, não teria condições de maltratar animais à noite e ainda fugir da polícia, dadas as suas claras limitações visuais (um argumento não utilizado por Edalji em sua defesa, tamanha a descrença de que ele seria de fato condenado).

As cartas e as mutilações a animais continuaram mesmo com o advogado já preso, o que contribuiu para a verificação do caso. Em 1907, George Edalji foi solto. Essa narrativa inspirou o romance
Arthur & George, de Julian Barnes, e uma subsequente série de televisão.


#3 Construído em celebração ao nonagésimo aniversário do movimento socialista da Bulgária, o Buzludzha é o maior monumento ideológico do país e hoje talvez um dos mais incríveis lugares abandonados do mundo. Este pavilhão imenso, uma espécie de duomo com 60 metros de diâmetro e 22 verticais, foi erguido no topo de uma montanha de 1.432m de altura, no centro da Bulgária, em 1977, ao custo estimado de 7.000.000 euros (arrecadados por meio de selos “promocionais” cuja compra – obrigatória à população búlgara – revertia-se em fundos para a construção do Buzludzha).

O projeto arquitetônico, inspirado no Pantheon de Roma, é grandioso e justifica o orçamento. A começar pela estrela vermelha iluminada da torre, pensada para ser vista do sul ao norte da Bulgária (aliás, diz-se que do topo do Buzludzha é possível ver três quartos do país). Além disso, em seu interior, há 550 metros quadrados de
mosaicos hoje definhados e deteriorados, não só pelo tempo, como pelos próprios visitantes desse mausoléu do comunismo. Para se ter ideia da grandiosidade, cada uma das duas estrelas pesa 3.5 toneladas e mede cerca de doze metros.

Hoje o lugar é esquecido, mesmo sendo propriedade do partido comunista búlgaro que, no entanto, não tem dinheiro para revitalizá-lo. As pessoas que o visitam têm que ir com carro próprio, porque não há transporte disponível – leva aproximadamente duas horas para se chegar da cidade mais próxima. No início de sua construção, uma explosão foi induzida para que a montanha perdesse nove metros, possibilitando assim a fundação do edifício.

Um fato interessante sobre os mosaicos: neles estão representados Marx, Engels, Lenin e seus “sucessores” búlgaros Dimitar Blagoev, Georgi Dimitrov e Todor Zhivko. Apenas o rosto de Zhivko foi
apagado inteiramente das paredes do Buzludzha.

[obrigado, Fernanda Benini!]

#4 Nos anos 70, se você quisesse fazer filmes pornográficos profissionais com representação de estupros, tortura e misoginia, bastava utilizar um enredo nazista. Esse foi um pretexto comum para uma onda de películas, oficialmente pornográficas ou não, em cujo enredo, via de regra, mulheres eram torturadas por oficiais nazistas. Apesar de, conforme o esperado, não constar nenhuma precisão histórica além de alguns uniformes, braçadeiras e suásticas, havia a risível desculpa, representada aqui no aviso do filme Ilsa, a Guardiã Perversa da SS, de que, por exemplo, o filme era dedicado com a esperança de que crimes semelhantes nunca mais se repetissem. E você preocupado quando inventa migués para não trabalhar. O ciclo "sadiconazista", como acabou conhecida essa espécie de subgênero, gerou pérolas como A Última orgia do III Reich e Nazi LoveCamp. Em A Última Orgia da Gestapo, para se ter uma ideia, prisioneiros judeus e oficiais nazistas. E canibalismo. (Mais sobre o tema na excelente DangerousMinds)

 


1. O passado é uma cortina de vidro.
2. O destino é uma questão de escolha.
3. Existir é mais do que sentir: é crer e acontecer.
4. Se um dia fecharem-lhe as portas, pule a janela.
5. Nem sempre o mal que recebemos tem relação com o bem que distribuímos: Deus tem seus desígnios.
6. Os sonhos regam a existência com o sentido.
7. O amor vem para aquele que acredita que, além de amar, é preciso desaprender a odiar.
8. Antes de decidir, pense se aquilo que você faz será ruim para você mesmo: chamamos isso de alteridade.
9. Todos fecham seus olhos quando morrem, mas nem todos enxergam quando estão vivos.
10. A vida é uma montanha escalada com as unhas da alma.

RESPOSTAS: AC (1, 2, 4, 6, 9); Enclave (3, 5, 7, 8, 10).

 


"Desde 1987, quando comprei o meu primeiro, tenho usado um relógio no pescoço 24 horas por dia. Você me entende? 24 horas por dia."
 
Flavor Flav, rapper conhecido pelos seus extravagantes colares de relógios (Fonte)

 

Não são erratas, mas sobre discos com iniciais da própria banda (como MBV, do My Bloody Valentine), recebemos as adições de BRMC, do Black Rebel Motorcycle Club (2001 – obrigado, Gollnick Felipe) e várias, várias, VÁRIAS outras, porém só decidimos registrar essa.
 
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